Ttulo: A corista.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1990.
Ttulo Original: Beauty or brains?
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Maria Fernanda Pereira.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
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Barbara Cartland A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo

A corista
Um palco artisticamente iluminado. Jovens de
corpo escultural e riso fcil. O aplauso e o
delrio do pblico, principalmente o masculino.
Olhos abertos para um mundo de sonhos. Era
isso o que Lavnia entendia como vida de corista.
E esse sonho a seduziu a ponto de deixar a humilde e severa casa onde nasceu e partir para a
cidade grande, pois pretendia explorar seu
charme e sua inteligncia. E j contava com um
primeiro cliente: o marqus de Sherwood!

Nova Cultural

BARBARA CARTLAND
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: Beauty or brains?
Copyright: (c) Barbara Cartland
Traduo: Carmita Andrade
Copyright para a lngua portuguesa: 1990
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3o andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda
Impressa na Artes Grficas Parmetro Ltda.

NOTA DA AUTORA
A comdia musical, que se seguiu ao antigo burlesco, teve seu incio no Teatro de Variedades, em Londres, em 1894.
George Edwardes, um verdadeiro gnio do teatro, esmerou-se na produo da pea A Vendedora, trabalho diferente de tudo que fora apresentado at ento.
A noite de abertura foi um verdadeiro sucesso e lotou o teatro.
Os espectadores extasiaram-se com o gosto indiscutvel da decorao e vestimentas, e encantaram-se com as vedetes, perfeitas em sua feminilidade.
George Edwardes exaltou a graciosidade das moas, tomando-as apreciadas no somente pelos homens como tambm pelas mulheres.
Em todos os ttulos de seus espetculos, ele usava uma palavra feminina, como A Vendedora, e a pea que a substituiu em Londres foi A Garota.
Essa sua linha foi bastante apreciada, principalmente considerando-se a poca.
O perodo ureo das coristas do Teatro de Variedades foi de 1894 a 1914.
Muitas delas casaram-se com homens possuidores de ttulos de nobreza, e obtiveram sucesso tanto em seus casamentos como no palco.
Sabia-se em toda Londres que a roupa ntima das coristas era de seda pura e renda verdadeira.


O marqus lanou uma vista d'olhos ao teatro e constatou que estava repleto.
Ele investira um bom dinheiro no show, e no deixava de ser gratificante pensar que no apenas o pressentimento de George Edwardes estava certo, como tambm o seu.
Ele concorrera muito para fazer aquele tipo de teatro famoso.
Por ser um dos mais importantes aristocratas da sociedade, grande nmero de cavalheiros seguiram-no na apreciao do Teatro de Variedades.
O marqus assistia aos shows quase todas as noites, e depois levava uma ou duas coristas para jantar.
Esse costume passou a ser a ambio de todos os rapazes de boas condies econmicas. Muitas vezes, para levar uma das moas do teatro ao Romano's, eles gastavam 
at a ltima libra. Todavia, voltavam para casa embriagados de satisfao.
Nunca houvera nada assim na histria do teatro. E a porta de entrada das artistas ficou sendo o porto de entrada dos romances. Havia l sempre dzias de jovens 
de chapu alto e casaca, rezando para conseguir que uma das deusas do teatro fosse jantar com eles.
O show exibido no momento intitulava-se A Vendedora, e prendia a ateno do pblico do comeo ao fim.
O primeiro ato chamava-se "As lojas da nobreza", e honrava o nome.
O segundo ato, "O bazar das fantasias", era uma histria de amor, romance no qual um jovem estudante de medicina apaixonava-se por uma modesta balconista.
E o marqus admitia, um tanto ceticamente, que esse romance acontecera na vida real de muitas moas do teatro.
Algumas delas haviam se casado com nobres ou com milionrios. E muitas outras teriam a mesma sorte no futuro.
Porm, apesar do grande nmero de mulheres lindas, sedutoras e elegantemente vestidas que tinham passado por suas mos, ele no sonhava em pedi-las em casamento.
H muito decidira no se casar, at ficar velho demais para usufruir os prazeres da vida de Londres.
Nesse meio tempo, procurava apenas divertir-se. E no lhe era difcil obter o que quisesse, pois era muito rico.
Os que o invejavam diziam que o mundo todo lhe pertencia.
O marqus ostentava no somente um dos mais conceituados ttulos de nobreza, como tambm possua uma encantadora casa de campo em meio a enorme propriedade.
Seus cavalos de corrida cruzavam invariavelmente em primeiro lugar a linha de chegada, e sua matilha de ces de caa era a mais famosa de Londres.
Ao descer o pano de palco, aplausos estrondosos irromperam. Os artistas vieram saudar o pblico.
Buques e mais buques eram lanados ao palco, com gritos e assobios dirigidos aos protagonistas.
Contudo, mais algazarra acolheu as coristas.
O marqus colocou o binculo para ver melhor a que ele tencionava levar para jantar aquela noite.
A moa sorria, e o marqus considerou-a a mais bonita de todas. Mas, ao mesmo tempo, achava que o reinado dela chegava ao fim em seu corao.
Cansara daquele romance, embora reconhecesse que vivera momentos de grande felicidade com ela.
Sabendo que a cortina levantava e descia no mnimo uma dzia de vezes, ele foi, vagarosamente, do camarote aos bastidores.
Um empregado abriu-lhe a porta, cumprimentando-o:
- Boa noite, milorde. Gostou do espetculo?
- Muito! - replicou o marqus.
Ele atravessou um corredor que no primava pela limpeza, at a escada de ferro que conduzia aos camarins dos artistas.
 esquerda ficava a porta da rua.
Sentado em seu cubculo, estava Jung, assediado como sempre pelos jovens que lhe pediam para entregar recados s coristas.
Os bolsos de Jung deviam estar cheios de moedas de ouro que lhe eram dadas junto com os bilhetes para serem entregues s moas.
Enquanto esperava, o marqus ouviu a orquestra executar Deus Salve a Rainha, e soube que a cortina enfim se fechava definitivamente.
A, o movimento dos bastidores comeou.
As mulheres lanavam-lhe olhares convidativos, ou sorriam, e esforavam-se por serem notadas.
Se a ambio de cada rapaz era levar uma corista do Teatro de Variedades para cear, a ambio de cada corista era ser convidada pelo marqus.
Por no querer deix-lo esperando por muito tempo, Lucy, a moa que iria sair com ele naquela noite, apareceu logo.
Era sem dvida bonita, uma ruiva que chamaria a ateno de qualquer homem. E a beleza de seu penteado devia muito pouco aos talentos do cabeleireiro, pois os cabelos 
de Lucy eram lindssimos por natureza.
Seu rosto tinha traos perfeitos, e o corpo era escultural. A toalete que usava acentuava-lhe os encantos.
O marqus sabia que toda a vestimenta pertencia ao teatro. George Edwardes no confiava no gosto das coristas, e fornecia-lhes a roupa. Permitia tambm que as usassem 
para cear no Romano's com seus amigos.
- Espero que no tenha esperado muito por mim, milorde
- disse ela ao marqus, num tom de voz meigo, bem feminino.
Dois enormes olhos suplicavam-lhe compreenso, pois no queria v-lo entediado.
- Minha carruagem est l fora - replicou o marqus simplesmente, pegando no brao de Lucy.
A multido que se aglomerava na porta de sada dos artistas afastou-se para dar-lhes passagem.
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A carruagem do marqus era a primeira da longa fila estacionada na rua.
Ouviram-se gritos de saudao, no apenas a Lucy, mas tambm ao marqus.
- Sherwood! Sherwood! Faa seus cavalos ganharem na prxima corrida!
Era o mesmo aplauso que o marqus acostumara-se a escutar em todos os preos do jquei.
Ele acenou com a mo antes de ajudar Lucy a subir na carruagem.
Lucy acomodou-se nas almofadas de cetim com cuidado para no tirar do lugar as flores do cabelo, que combinavam com o vestido.
Assim que a carruagem se ps em movimento, ela disse:
- Voc chegou tarde ao teatro hoje. Notei que seu camarote ficou vazio quase at o fim da pea.
- Atrasei-me no jantar do clube - explicou-lhe o marqus. - Na verdade, no podia ter vindo, mas queria ver voc.
- Contei as horas at sua chegada! E como andaram devagar!
O marqus sorriu e no respondeu. Muitas mulheres j lhe haviam dito a mesma coisa, e surpreender-se-ia se no o dissessem.
Na Strand, a avenida mais elegante de Londres, pararam  porta do restaurante Romano's.
O prprio Romano, um homenzinho moreno, dono do restaurante, apressou-se a receber o marqus.
Ele mesmo conduziu o casal ao sof da mesa mais bem situada do salo.
Lucy sentia-se orgulhosa, sabendo que todas as mulheres presentes a invejavam.
Elas atiravam beijos ao marqus que, todavia, no parecia nada entusiasmado com essas manifestaes de afeto.
A sala oval, com cortinas vermelhas e sofs de plumas, estava cheia de amigos do marqus acompanhados de 
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mulheres extremamente elegantes.
Pelo fato de os aplausos do Teatro de Variedades serem mais prolongados que nas outras casas de espetculo, quase todas as mesas j estavam ocupadas quando eles 
chegaram.
As ltimas foram logo tomadas pelas demais pessoas vindas do Teatro de Variedades, um pouco depois do marqus e de Lucy.
As coristas exibiam flores nos cabelos. Usavam vestidos decotados e tinham cintura to fina que duas mos de homem podiam contom-las.
As mesas de muitas delas estavam cheias de flores, l postas por ordem de seus admiradores.
O garom apresentou ao marqus um menu manuscrito, e outro esperava atrs dele com uma garrafa de champanhe, da marca preferida pelo nobre cliente.
O marqus acomodou-se melhor no sof, e disse a Lucy:
- Agora conte-me o que andou fazendo enquanto eu estive fora.
- Esperei por seu regresso ansiosamente - replicou Lucy.
- No acredito que no tenha sado todas as noites para cear!
- As vezes que sa, no foi com ningum de importncia. Ela achegou-se mais ao marqus que, nesse momento,
olhou para um rapaz que acabara de entrar no restaurante.
- Alo, Rupert! - cumprimentou-o o marqus. - Pensei que voc se achasse fora da cidade.
- Estive no campo, e vim ao Romano's especialmente para v-lo - respondeu Rupert Wick. - Tinha certeza de encontr-lo aqui.
- Eu tambm queria estar com voc a fim de convid-lo a tomar parte numa caada no dia vinte e trs.
Rupert Wick ficou radiante. Era um privilgio ser convidado para ir  casa do marqus, e maior privilgio ser includo entre seus hspedes para as caadas.
- Aceito seu convite - replicou Rupert. - E tenho um convite para voc. Minha irm Katherine, que debutou este
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ano, quer que jante conosco uma noite destas. O marqus no respondeu logo e Rupert continuou:
- No ser uma festa grande, porm Katherine e suas amigas esto ansiosas por sua visita.
- Sei disso. Mas minha resposta  no! - Sherwood detestava as debutantes que achava serem desajeitadas e sem atrao.
Ele sorriu e acrescentou:
- Apresente minhas desculpas a sua irm. E conto com sua presena no dia vinte e trs.
Rupert entendeu que a conversa terminara ali. E sabia ser intil insistir ou discutir com o marqus.
Em vez disso, foi para o outro lado da sala e uniu-se a um grupo de amigos que entretinham quatro moas do Teatro de Variedades.
Lavnia Vernon olhou para a janela e constatou que chovia.
No poderia, portanto, cavalgar naquela tarde conforme planejara. Ficou desapontada.
Lembrou-se ento de que estava na metade de um livro muito interessante. Descrevia as aventuras de um homem que ousara penetrar no Tibete disfarado, e que conseguira 
ver o Dalai-Lama.
Ela adorava ler, e em sua casa havia muitos livros.
Seu pai, o pastor Arthur Vernon, o filho mais jovem de lorde Vernon, viajara pelo mundo todo antes de se casar.
O velho Vernon, av de Lavnia, tencionara dar a Arthur uma parquia localizada em sua propriedade. Mas, infelizmente, morrera enquanto o filho viajava, e a propriedade 
teve de ser vendida para saldar dvidas.
Foi oferecida ento ao pastor Arthur uma parquia no condado de Little Wickington, pelo prprio conde de Kenwick.
L, Arthur e sua famlia viviam muito felizes, ainda que modestamente.
O pastor no podia mais viajar como no tempo de solteiro, mas "viajava" lendo sobre as partes do mundo onde no
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estivera.
Nas horas livres, escrevia um livro, e Lavnia achava cada novo captulo mais interessante que o anterior.
Ao meio-dia ela e o pai almoaram na pequena sala de jantar. A comida era simples, mas bem preparada pela velha governanta.
- Como foi sua manh hoje, papai? - indagou Lavnia.
- Fiz mais pesquisas sobre a ndia. Acho que consegui o que desejava. Lerei tudo para voc esta noite.
- Que bom, papai! - exclamou Lavnia. Terminando o almoo, ela ajudou a governanta a tirar a
mesa, e ia subir para pr o traje de montaria, na esperana de que a chuva tivesse passado. Mas constatou que ainda chovia.
Pegou o livro para continuar a leitura quando ouviu uma pancada na porta.
"com certeza a bab j se encontra no quarto", pensou Lavnia. "Coitadinha, est bastante velha! "
Lavnia foi ento atender  porta.
Surpreendeu-se ao dar de cara com um criado de libr e chapu emplumado.
- Miss Lavnia, por favor! - disse ele.
- Sou eu mesma - replicou Lavnia.
O criado dirigiu-se  carruagem puxada por dois cavalos l estacionada, e abriu a porta.
Lavnia ficou intrigada. A quem pertenceria veculo to elegante?
Da carruagem desceu uma jovem mulher; Lavnia reconheceu-a logo. Era Katherine Wick, que ela no via h quase um ano.
Lady Katherine, muito bem trajada, abraou Lavnia dizendo:
- Est surpresa com minha visita?
- Estou encantada, Katherine. Julguei que voc tivesse se esquecido de mim!
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As duas entraram no hall.
- Perdoe-me, querida - desculpou-se Katherine. - Mas estive em Londres por vrios meses e no quis visit-la antes de partir para no perturb-la durante o luto 
de sua me. Voc est linda, Lavnia! Se pudesse ir a Londres causaria sensao.
Lavnia riu muito.
-  bem pouco provvel que eu v a Londres. Alm de papai no poder se ausentar daqui, por causa de seu trabalho, no tenho condies financeiras para essa viagem.
As duas moas sentaram-se na sala.
- Mas fale-me sobre o seu sucesso na temporada - acrescentou Lavnia. - Claro que aqui a aldeia no comenta outra coisa.
Lorde Wick, pai de Katherine, era o proprietrio de todos os chals da aldeia e de toda a terra em redor de Wick House, terra essa cercada por alta muralha de tijolos 
vermelhos.
Lavnia muitas vezes, durante o vero, entristeceu-se ao pensar que no havia ningum na casa-grande.
Recebia algumas informaes por meio dos empregados que tinham contato com a criadagem que seguira com o conde para Londres.
Mas tudo que diziam era que lady Katherine brilhava como uma das beldades da temporada.
Isso no surpreendeu Lavnia. Ela tambm admirava Katherine, no apenas pela beleza mas tambm pela ousadia e coragem da amiga, amante de aventuras perigosas.
Katherine cavalgava muito bem, e saltava obstculos melhor que muitos homens, at arriscando-se.
Quando permanecia na aldeia, estava sempre inventando alguma coisa para divertir a famlia e os amigos.
Ela e Lavnia haviam praticamente crescido juntas.
Por isso, na ausncia da amiga, Lavnia sentira falta das competies de arco e flecha, das corridas de canoa pelos lagos, dos bailes com cotillons que tinham tido 
lugar na casa15
grande desde que ela era criana.
Agora na sala, ao lado da amiga, Lavnia confessava:
- Senti muito sua falta, Katherine, muito mesmo!
- Voc me faz sentir vergonha de minha ausncia por tanto tempo! Eu podia ao menos ter lhe escrito umas linhas. Mas, honestamente, Lavnia, eu s corria de uma festa 
para outra, ou experimentava vestidos. Tinha a impresso de que todo meu corpo estava espetado de alfinetes.
Lavnia divertiu-se com o comentrio da amiga.
- Soube que voc no era apenas a debutante mais chique como a mais bonita da temporada, Katherine!
- Isso  exagero! Mas  bom ouvi-la falar assim! Porm agora, Lavnia, preciso de seu auxlio.
- De meu auxlio? No seja misteriosa! No me diga que est preparando outra brincadeira louca! Conheo sua cara, e nunca me engano!
- Talvez seja uma brincadeira louca, mas muito divertida, no duvide!
- E de que se trata?
- Tudo depende de eu conseguir sua ajuda, Lavnia. Lavnia bateu palmas e pediu:
- Conte-me! Conte-me!
Katherine encarou a amiga com ateno, como se tentasse analisar cada detalhe de seu rosto. Em seguida, declarou:
- Voc realmente  linda, Lavnia. No entendo por que no a levei comigo a Londres, para que fosse a todos os bailes. Ao menos no fim da temporada, quando seu luto 
j havia terminado.
- No vejo razo para voc pensar em mim, Katherine. Tambm, por estar sofrendo muito com a morte de mame, eu no teria tido vontade de danar nem de me encontrar 
com pessoas novas, embora ache que voc me considera uma tola por isso.
- Muito tola! - concordou Katherine. - Mas agora vamos fazer algo divertido, que nos far rir muito, como no
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passado.
- O que est tramando, Katherine? Aposto que  uma loucura completa.
-  verdade! Daremos uma lio num homem convencido, emproado, cansativo! E tenho um monte de razes para agir dessa maneira.
Katherine expressava-se com tanto entusiasmo que Lavnia no quis interromp-la. Apenas ria.
- Suponho que j ouviu falar no marqus de Sherwood, no? - indagou Katherine.
- Sim, naturalmente. Ele possui muitos cavalos de corrida e sua prpria matilha de ces de caa.
- Esse mesmo! E, como me insultou, quero pagar-lhe na mesma moeda.
- Ele insultou voc? Como pde fazer isso, Katherine?
- vou lhe contar. Durante a temporada em Londres, conheci debutantes muito bonitas e simpticas.
- No mais bonitas que voc, garanto - interrompeu-a Lavnia.
- Bem, eram muito bonitas, festejadas e recebiam constantes elogios. Provocaram tremenda reao entre os jovens de Londres, excetuando-se um.
- E esse foi o marqus de Sherwood, suponho! - Lavnia adiantou-se e sorriu.
- Voc  sempre muito rpida em seus raciocnios, Lavnia, embora o marqus no acredite que uma mulher possa ter essa qualidade.
- Mas o que houve, afinal, Katherine?
- Minhas amigas e eu decidimos dar uma pequena festa e convidar o marqus. Todo mundo sabe que ele  louco pelas vedetes do Teatro de Variedades, e aparenta no 
se interessar por outro tipo de mulher.
Como se adivinhasse o fim da histria, Lavnia piscou enquanto Katherine prosseguia:
- Persuadi Rupert, que o conhece bem, a convid-lo para a festa. Achei que, se meu irmo fizesse isso, seria difcil
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ao marques recusar.
- E ele recusou!
- No s recusou como nos chamou de debutantes tontas, desajeitadas e sem atrao.
- Isso foi realmente muito grosseiro! - protestou Lavnia, indignada.
- Considero uma falta de educao chocante da parte dele! E minhas amigas concordam comigo! Da queremos nos vingar!
- E o que pretendem fazer?
- Temos um plano e  nele que voc entra! Lavnia no podia imaginar nada em que pudesse ser til
no que se referia ao marqus de Sherwood.
Porm achou a histria interessante, e escutou-a atentamente at o fim.
- Pensamos muito e tivemos uma ideia excelente!
- A ideia foi sua, Katherine, aposto!
- Sabe que sempre fui muito rpida em inventar coisas fora do comum, Lavnia!
-  certo! Lembra-se da agitao que voc causou um dia ao soltar numa festa de sua casa um tigre do circo da vizinhana? E ele mordeu o cachorro de estimao de 
seu pai!
- Admito que dessa vez falhei! - Katherine ria. - Mas minhas outras festas foram um sucesso!
- Claro que foram! - concordou Lavnia. - E tudo assemelhava-se a algo vindo de um pas de fadas!
- Sempre achei! E, para o marqus, vamos criar um verdadeiro pas de fadas no qual ele ter o papel do palhao infeliz!
Lavnia considerava a situao impossvel. O marqus de Sherwood um "palhao infeliz"?
Mas ela sabia como Katherine era insistente quando decidia executar algum plano.
- Sei muito bem - repetiu Katherine - que o marqus adora as vedetes e, de acordo com Rupert, no sabe nem conversar com moas iguais a ns.
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- Mal posso acreditar! - exclamou Lavnia. - Se ele vai a festas, tem de conhecer pessoas como ns.
- As festas que ele frequenta so as dadas pelo prncipe de Gales em Marlborough House - explicou Katherine -, e pelas anfitris mais maduras, mulheres sofisticadas, 
que entretm beldades profissionais.
Lavnia sabia que "beldades profissionais" era o ttulo dado s mulheres aclamadas nos parques londrinos, pelas multides.
At um ano atrs, quando Lavnia ia regularmente  cidade de Katherine, ouvia os dois irmos dela falarem sobre as delcias da vida de Londres.
E no ignorava que o irmo mais velho da amiga, o visconde, mantinha um romance com a linda lady de Grey, mulher casada.
E o irmo mais jovem, Rupert, passava seu tempo levando as vedetes do Teatro de Variedades para cear.
- Minha ideia - Katherine continuou explicando -  fazer com que Rupert convena o marqus a dar uma festa na qual lhe seriam apresentadas coristas do teatro, desconhecidas 
dele.
- Como  possvel? - indagou Lavnia. - O marqus conhece todas, pois vai ao teatro noite aps noite.
- George Edwardes sempre tem um show circulando em outras cidades como Birmingham ou Manchester. Nesses lugares ele treina as moas e corrige todas as falhas existentes, 
antes de exibir o. grupo em Londres. Por essa razo, na capital, elas so sempre um sucesso.
-  algo que eu ignorava - comentou Lavnia.
- Rupert me contou isso h muito tempo, e quando lhe perguntei se essa prtica continuava, ele me revelou que George Edwardes apresentava no momento uma pea chamada 
A Garota, que substituir A Vendedora muito breve no Teatro de Londres.
Lavnia concluiu ento que as moas que compunham o elenco secundrio iriam  casa do marqus e o humilhariam
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por serem menos apreciadas que as vedetes de Londres.
Katherine, achando que adivinhara o pensamento da amiga, disse:
- Voc percebeu, Lavnia, o que pretendo fazer?
- Desculpe... mas... explique-se melhor... - gaguejou Lavnia.
- O que tenciono  sermos apresentadas por Rupert ao marqus, como se fssemos as coristas do Teatro de Variedades em tour fora da capital.
- Voc disse... ns.
- Claro que disse ns. A festa ser no dia vinte e trs. O marqus receber oito amigos em sua residncia de campo, para caadas. Eu j tenho sete moas, incluindo 
a mim, e voc ser a oitava!
- Est louca, Katherine? - protestou Lavnia. - Como posso passar por uma vedete? E voc, apesar de linda, nunca se parecer com uma delas!
- Seja mais esperta, minha cara! No vamos nos apresentar do jeito que estamos agora. Fui ao Teatro de Variedades muitas vezes e sei exatamente como se vestem essas 
mulheres. Usam as roupas mais fantsticas; e tm o rosto pintado e empoado, os lbios rubros e os clios negros.
Lavnia fitou a amiga, estupefata.
- Voc no vai se apresentar assim, Katherine!
- vou! E at pior. Precisamos convencer o marqus de que no apenas somos bonitas, mas tambm mais inteligentes, mais educadas, e mais espertas que qualquer corista 
do Teatro de Variedades.
- E conseguiremos?
- Temos de conseguir! E se voc, Lavnia, no puder convencer o marqus e seus amigos de que  mais inteligente que uma moa comum, cujo nico predicado  a beleza, 
ficarei bem desapontada a seu respeito.
- No me parece decente agir de maneira... to ultrajante!
- protestou Lavnia.
- Ento, s posso deduzir que voc me enganou todos
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estes anos, fazendo-se passar por mulher inteligente.
- No est falando srio, est, Katherine?
- Claro que estou! No posso aceitar a ofensa que esse marqus me fez, antes mesmo de me conhecer!
Ela acenou com a mo antes de acrescentar:
- Millicent, filha da duquesa de Cumbria, disse-me que convidaram-no para trs festas j, e ele nem se dignou comparecer ou apresentar desculpas.
- Essa atitude  bem rude! - concordou Lavnia.
- A duquesa est furiosa, e o duque tambm!
- Mas o marqus deve ir a algumas festas! - insistia Lavnia, achando que essa histria de ele s comparecer a reunies do prncipe de Gales ou de mulheres casadas 
no era verdadeira.
- Ele vai onde espera se divertir. E vive levando as vedetes ao Romano's onde, naturalmente, elas brilham, pois no h muita competio de mulheres de outro tipo 
por l.
Katherine falava com sarcasmo, e Lavnia notou que estava-na verdade furiosa com o marqus.
- Tenho certeza - observou Lavnia - que voc pode encontrar algum melhor do que eu para essa representao. Sei que vou ficar... confusa.
- Agora est sendo tola de novo.  muito mais esperta que qualquer de minhas amigas, e lembro-me de como representava bem nos pequenos teatros que fazamos em casa, 
no Natal. Rupert disse um dia que voc devia ser atriz.
- Mame ficaria horrorizada com a ideia! - exclamou Lavnia.
- Entendo que voc no poderia ir ao palco; mas tomar parte em meus planos, agindo em casa como num teatro, no tem nada demais. E, quando ns formos embora, Rupert 
revelar ao marqus quem somos, e ele perceber como foi tolo em ser enganado.
- Acho que talvez seja um erro... tudo isso... - Lavnia comeou a falar.
Katherine impediu-a de prosseguir, interrompendo-a:
- No pode me deixar "na mo". Sempre confiei em voc, e ficarei muito sentida se recusar meu pedido.
Lavnia deu um suspiro. Sentia-se dando um salto no escuro, sem ter noo alguma do que a esperava do outro lado. E como Katherine a fitava com olhar suplicante, 
sussurrou:
- Muito bem... se voc precisa de mim... claro que a ajudarei!
CAPTULO II
Lavnia e Katherine entraram na carruagem que as levaria a Wick House.
- Vejo que voc tem novo lacaio - comentou Lavnia.
- No o reconheci quando ele apareceu em minha porta, e no podia imaginar quem me visitava.
- Papai contratou muitos empregados novos em Londres. Isso significa que os que trabalham para ns h anos, que andem na linha.
Lavnia viu que essa era uma observao tpica de Katherine. Sabia que tanto o conde como toda a famlia tratavam bem os habitantes da aldeia.
Durante o trajeto Katherine informou Lavnia de que algumas das moas que tomariam parte no que ela chamava de "teatrinho" j estavam hospedadas em sua casa. Por 
isso, insistira que Lavnia a acompanhasse para conhec-las.
- Preciso confessar-lhe o que me preocupa - disse Lavnia, enquanto a carruagem enveredava pela alameda ladeada de frondosas rvores que conduzia  entrada principal 
da casa-grande.
- O que a preocupa, Lavnia? Aps certa hesitao, ela declarou:
- No tenho um vestido decente para a reunio. Papai... no est bem de finanas.
- No ignoro isso, e jamais pensaria em pedir a seu pai, a quem admiro desde criana, que pagasse por uma coisa que com certeza no aprova.
- Ento quem?
- Ainda no tive tempo de lhe contar tudo 23
interrompeu-a Katherine. - Mas uma das moas que est cooperando comigo  Suzana Heatherington, extremamente rica. Disse que pagar pelo que voc necessitar.
-  muita generosidade da parte dela! - replicou Lavnia.
Contudo, Lavnia admitia ser aquele um dinheiro posto fora, porque ela nunca mais teria chance de usar o vestido.
Katherine, adivinhando o que importunava a amiga, explicou:
- Nossas roupas sero confeccionadas por uma famosa costureira de Londres, que veste as moas do Teatro de Variedades. Terminada a festa, poderemos tirar alguns 
babados e enfeites exagerados dos vestidos, e us-los normalmente.
Lavnia gostou da ideia. Ela havia comprado apenas dois vestidos novos aps o luto da me. Eram baratos, mas graciosos, e lhe ficavam muito bem. No obstante, no 
poderiam competir com os trajes que Katherine usava.
- Voc vai conhecer Suzana e Millicent assim que chegarmos em casa - observou Katherine. - So muito bonitas. Dris Vincent tambm tomar parte na brincadeira.
O pai de Dris era membro do gabinete da rainha, e Lavnia imaginou o desastre que seria se algum viesse a saber do que iriam executar. Se a travessura delas fosse 
publicada num jornal, o pai de Dris ficaria furioso na certa.
No entanto, Lavnia sabia ser intil discutir com a amiga. Desde criana Katherine agia como bem queria.
Quando meninas, era sempre Katherine quem decidia do que brincariam aps as aulas. E ela inventava diabruras incrveis, deixando s vezes Lavnia em apuros.
Chegavam enfim  porta de Wick House, manso majestosa, mas sem arquitetura definida. Vrias alas haviam sido acrescentadas por geraes que se sucederam. E o que 
fora feito havia cinquenta anos, no melhorara em nada a construo original.
No interior, a mesma coisa: uma mistura, um pot-pourri de vrios sculos! Contudo, por ter crescido naquela casa,
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Lavnia amava-a e achava-a linda!
Entrar em Wick House era o mesmo que entrar em sua prpria casa.
Nos ltimos meses a manso permanecera fechada, triste, pois Katherine e a famlia estiveram em Londres. As persianas no se abriram e no houve fumaa saindo pelas 
chamins.
Agora, tudo voltava ao normal.
O velho mordomo, na casa h anos, cumprimentou Lavnia respeitosamente:
-  bom v-la, miss Lavnia. Seu pai est bem de sade?
- Muito bem, obrigada, Dobson. E como vai seu reumatismo?
- Me causa alguma dor, como sempre, miss.
Ele sorriu e Lavnia devolveu-lhe o sorriso. Ela sabia que o reumatismo do velho mordomo o impedia de ir  igreja. Era uma longa caminhada at a aldeia.
Katherine no deu ateno a essa troca de palavras. Corria para dentro, ao encontro das amigas que se achavam na sala azul, um local atraente, mas no to grande 
como o salo de gala, usado em ocasies especiais.
Duas moas sentavam-se l, ambas muito bonitas. Lavnia foi apresentada a elas.
Suzana tinha cabelos escuros, olhos rasgados, nariz perfeito e queixo de linhas fortes.
Millicent era mais esbelta. Seus cabelos loiros pareciam espalhar os raios do sol. Possua um sorriso irresistvel; seria impossvel no se encantar com ela.
- Aqui est Lavnia - declarou Katherine s duas moas. - J lhes falei sobre ela; mais inteligente que qualquer uma de ns.
- E linda tambm! - acrescentou Millicent. - Isso  o mais importante de tudo.
- Bobagem - censurou-a Katherine. - Tentaremos provar que no  s beleza o que conta, mas o crebro!
As meninas riram e Suzana comentou:
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- Se vamos fingir que somos coristas, s nossos rostos sero levados em considerao.
- L isso  verdade - concordou Katherine. - Voc preparou os detalhes de nosso plano, conforme mandei?
- Claro, providenciei tudo - replicou Millicent. - Quer me ouvir?
Ela pegou ento um pedao de papel; preparava-se para ler quando notou que Lavnia era a mais intrigada de todas. Por isso dirigiu-se especialmente a ela:
- Katherine nos preveniu que devemos agir como vedetes do Teatro de Variedades, e no podemos nos esquecer disso o tempo todo, em especial na presena do marqus.
- Concordo que  muito importante! - observou Lavnia.
De qualquer maneira, ela estava bem nervosa s em pensar na misso que lhe cabia.
E o fato de ser chamada por outro nome a preocupava; temia esquecer-se da farsa, no melhor da festa.
-  melhor voc mesma ler com ateno - ordenou-lhe Katherine, estendendo-lhe o papel.
- Eu passarei a ser "Milly" - declarou Millicen. Acho que Milly Mills soa bem para uma mulher de teatro.
- Concordo - sussurrou Katherine.
- Elizabeth ser Betty Butt - prosseguiu Millicent - e Dris, Dolly Dalton.
- Esse sobrenome no  muito comum - objetou Katherine. Em seguida, foi explicando para Lavnia: - Sabe, George Edwardes prefere que suas coristas tenham nomes fceis 
de serem lembrados, extravagantes e diferentes.
- Muito bem - disse Suzana. - Que tal Dolly Dawes?
- Bem melhor! - anuiu Katherine.
- E Constance ficar sendo Connie Corry - continuou Millicent. - Wendy pode conservar seu prprio nome de batismo, mas como sobrenome adotar Winn. Suzana ser Susie 
Shaw; e ris, ris Locke.
Katherine batia palmas.
- Otimo! Otimo! E, agora, como se chamar Lavnia? Lavnia morria de ansiedade. Tentava adivinhar como
transformar seu nome em algo parecido, portanto fcil de ser lembrado por ela.
- Acho - Millicent sugeriu - que Vina Vern seria um nome ideal para Lavnia.
- Oh, sim! - exclamou Lavnia. - Posso me lembrar sem dificuldade desse nome.
- E combina com voc - afirmou Millicent. - E  tambm um pouco mais sofisticado que nossos nomes.
- Ento, tudo resolvido! - exclamou Katherine com um suspiro. - Eu serei Katy. Agora, vamos aos vestidos. Pelo que me contou Rupert ontem  noite, o marqus providenciou 
para que seu vago particular fosse engatado no trem que parte de Paddington Station s trs horas da tarde, no sbado.
Lavnia arregalou os olhos, dizendo:
- Mas temos de ensaiar um pouco-antes!
- Esqueci se j lhe contei tudo ou no - replicou Katherine. - Mas  para constar que acabamos de voltar de uma turn. Estamos em Londres e no temos nada a fazer 
at segunda-feira, quando seguiremos para a prxima cidade.
- Talvez voc tenha at me contado - desculpou-se Lavnia. -  que estou um pouco confusa e esqueci-me dos pormenores.
- Assim, passaremos duas noites na casa do marqus, e na segunda-feira partiremos muito cedo.
Lavnia quis dizer que achava dois dias demais, porm, como as outras moas aceitaram facilmente a proposta, ela resolveu calar-se.
- Sigo para Londres depois de amanh, e Lavnia ir comigo - sugeriu Katherine.
Lavnia fez uma exclamao de alegria:
- Verdade?
- Claro que  verdade. Temos de cuidar de nossos vestidos, e quero que voc assista ao show A Vendedora no Teatro
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 de Variedades.
Lavnia entusiasmou-se.
- vou adorar!
- Teremos de ir  matin, pois  noite o marqus com certeza estar presente. com certeza no nos veria, mas  bom no arriscar.
- No, claro que no devem arriscar - concordou Millicent. - E s Lavnia precisa ir, porque todas ns j vimos a pea.
-  mesmo - concordou Suzana. - Lavnia ter chance de ver como teremos de lutar para nos tornarmos atraentes aos olhos do marqus, tal qual as moas do show.
- Ele precisa nos achar lindas e provocantes! - admitia Katherine com bastante convico.
As quatro sentaram-se para discutir. Lavnia percebeu logo que Katherine estava realmente irritada com o modo como fora tratada pelo marqus.
"No entendo por que ficou to ofendida", ponderava ela. "A menos que, apesar de nunca ter estado com ele, o ame. Mas Katherine  um sucesso na sociedade, sempre 
muito apreciada.  absurdo pensar que um homem qualquer que a conhea no a ame. "
Enfim, a perspectiva de ir a Londres alegrava Lavnia bem mais do que qualquer outra coisa.
Quando voltou  casa, tinha a impresso de que danava nas nuvens.
Seu pai ainda trabalhava no escritrio. Era quase hora do jantar, por isso Lavnia interrompeu-o. Ele encontrava-se to entretido em sua tarefa que no percebeu 
o tempo passar.
- Que horas so, Lavnia?
- Sete horas, papai. Pare de trabalhar. Tenho uma coisa importante a lhe dizer.
- Que ?
O pastor continuava remexendo nos papis, e Lavnia viu logo que ele no estava lhe dando ateno.
- Katherine esteve aqui hoje, papai, e convidou-me para ir a Londres com ela, na prxima semana.
- Katherine? - exclamou o pastor.
Depois, como se de repente se lembrasse de quem se tratava, acrescentou:
- Oh, ela voltou? Que bom para voc, minha filha!
- Muito bom, papai. E voc no se importa que eu v a Londres com ela por alguns dias, no?
O pastor colocou os papis sobre a mesa e levantou-se devagar.
- Para ser franco - observou ele -, estou um pouco desapontado pela pouca ateno que Katherine lhe tem dado ultimamente. Quando vocs eram crianas, divertiam-se 
sempre juntas.
- Katherine j me pediu desculpas por sua negligncia, papai, e eu entendi bem as razes. Ela est muito ocupada em Londres para pensar na humilde menina que mora 
em Little Wickngton.
- E agora ela convidou voc para ir a Londres?
- S por alguns dias. Depois, vou ser convidada a uma festa dada pelo marqus de Sherwood.
Ela esperava que o pai protestasse, fazendo objeo a que ela fosse  casa do marqus. Mas ele apenas disse:
-  muito bom para voc, minha querida. E espero que se divirta.
Ele ia se retirando do escritrio quando acrescentou:
- Acho que, indo a Londres, vai precisar de vestidos novos. Darei a voc o que puder, minha filha.
- No ser necessrio, papai. Katherine me emprestar tudo, pois tem muito mais do que precisa.
O pastor sorriu.
- Sei disso. A famlia  muito rica. E tambm muito generosa com seu dinheiro.
No meio da escada ele parou e fez mais uma observao:
- Por sinal, preciso pedir ao conde que d uma contribuio aos orfanatos. Esto com muita necessidade de dinheiro.
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- Direi a Katherine que me informe assim que o pai voltar de Londres. Duvido que seja logo, pois parece se divertir muito na capital.
Lavnia pensava que, na verdade, o conde vivia muito s aps a viuvez. Alis, como seu pai.
Deveria haver, pensava ela, reunies para pessoas de idade que sentissem solido.
Depois do jantar, o vigrio leu para Lavnia o trabalho que executara durante a tarde. Ela achou-o muito interessante, e esqueceu-se de seu problema enquanto ouvia 
o pai, cuja voz, bem cultivada, agradava aos ouvidos.
Na igreja, quando ele fazia os sermes, toda a audincia parecia hipnotizada, at os meninos do coro.
No momento, escrevia sobre os lugares que visitara no passado, especialmente o Oriente.
E Lavnia visualizava tudo claramente, como se tivesse um filme ante seus olhos.
O tratado era sobre a ndia, incluindo o brilho do sol refletindo no rio Ganges, e o colorido dos saris secando nas margens.
Ele descrevia tambm as multides que se banhavam nas guas que acreditavam sagradas, e os barcos que navegavam vagarosamente ao sabor da mar.
Quando o pai acabou de ler, Lavnia deu um suspiro.
- Foi lindo, papai! Voc me fez sentir como se eu estivesse realmente na ndia.
- Eu adoraria levar voc para l, minha filha, mas temo ser impossvel, por questes financeiras.
Lavnia no ignorava que o pai sofria muito por no poder continuar com suas andanas pelo mundo, como quando jovem; queria galgar montanhas e navegar por rios ainda 
inexplorados.
Amaria conversar com nativos, pessoas diferentes dos habitantes de Little Wickington.
- Talvez algum dia possamos partir em longas frias animou-o Lavnia. - Vamos economizar cada libra!
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Os olhos do pastor iluminaram-se. Mas ele logo insistiu:
- Seria maravilhoso. Porm acontece que quero, meu amor, gastar com voc o que tenho. Se vir alguns vestidos bonitos em Londres, compre-os sem hesitar. Garanto que, 
ao terminar este livro, vou conseguir um adiantamento da
editora.
- Voc  um amor, papai, mas prefiro ir para a Grcia
em vez de comprar vestidos.
- Vamos fazer ambas as coisas. Est bom assim, Lavnia? Ele sabia que esse era um desejo impossvel de realizar.
No apenas por questo de dinheiro, mas pela dificuldade em se encontrar algum para ocupar seu lugar durante a ausncia.
Quando foi para o quarto, Lavnia comeou a se preocupar com a solido do pai, enquanto ela estivesse em Londres.
Mas logo concluiu que a nanny cuidaria de tudo.
Alm do mais, at que terminasse o livro, ele estaria em boa companhia.
As horas corriam lentamente enquanto Lavnia aguardava Katherine para irem a Londres. Tentara facilitar tudo para suavizar a vida do pai.
- Voc vai ler para mim os captulos do livro escritos durante minha estadia em Londres - observou Lavnia.
- Eles ficaro esperando por voc, minha querida. Na hora da partida, ela beijou o pai e ficou acenando com
a mo at o vicariato sumir de vista. Depois, sentada ao lado de Katherine, declarou:
- Meu pai sente muita solido, e suponho que o mesmo acontea com o seu. Mame costumava dizer que uma mulher tem mais fora para aguentar a viuvez.
- E  verdade - concordou Katherine. - E sempre me alegro quando meu pai se interessa por alguma mulher. Porm, acho que ele jamais poria algum no lugar de mame.
- Digo o mesmo sobre papai - afirmou Lavnia. -  o preo que eles pagam por terem sido to felizes no
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casamento.
Lavnia desejava conseguir essa mesma felicidade em sua vida de casada, qualquer que fosse o preo.
Queria amar seu homem de tal forma que nada mais no mundo importaria para ela. E esperava que esse sentimento fosse recproco.
- Voc j recebeu algum pedido de casamento? - perguntou ela a Katherine.
- Dois. Mas papai no aceitou nenhum dos rapazes como genros.
Lavnia pensou por alguns minutos, depois, hesitante, indagou:
- Que faria seu pai se voc se apaixonasse por um homem no aceitvel do ponto de vista dele?
- Impediria que me casasse, e eu no poderia fazer nada alm de obedec-lo.
- Mas... e se voc estivesse... amando de verdade, Katherine?
Aps curto silncio, Katherine replicou:
- Espero ser bastante prtica para s me apaixonar por um homem que possa me dar uma posio social invejvel, e que possua bastante dinheiro para me proporcionar 
tudo que desejo. E esse homem, com certeza, papai aprovaria.
Lavnia percebeu que Katherine expunha o que considerava essencial para sua felicidade. Mas ela pensou, ainda que no confessasse, que aquilo no era o verdadeiro 
amor. Pelo menos no o amor que ela desejava, e que sempre fizera parte de seus sonhos.
Morando no campo e tendo pouco contato com pessoas, em particular no ltimo ano por causa do luto por sua me, ela sabia pouco sobre homens.
Exceto,  claro, o que lia em livros.
Imaginava que o homem que viesse a amar seria um heri, como os cavalheiros das histrias de Walter Scott.
Ou, quem sabe, um homem ctico como os heris de Jane Austen, porm valente.
Ou tambm uma mistura dos cavaleiros da Idade Mdia e dos exploradores.
Desses que se aventuravam por regies inexploradas, onde nenhum homem branco ousara penetrar.
Tinha de ser corajoso a ponto de arriscar a vida para salvar uma donzela em perigo, ou uma criana desamparada.
Ela estava certa de que o homem que amasse teria todas essas qualidades.
Um dia o encontraria e, ento, seriam felizes para sempre.
Kenwick House, em Londres, era bem grande; porm, na opinio de Lavnia, triste e escura.
No deixava de ser confortvel, com muitos criados para servir ao conde e a Katherine.
- Uma dama de companhia mora aqui comigo - explicou ela a Lavnia -, porque no posso ficar sozinha quando papai vai a corridas ou a caadas.
- Quem  ela?
- Uma velha prima que nos serve com prazer, e que no me incomoda em nada. O nico problema  que  um pouco cansativa com suas conversas.
O modo como Katherine falou da prima fez Lavnia sentir pena da pobre mulher.
Lavnia recordou-se logo que a amiga impacientava-se com as incontveis primas e outros parentes que dependiam de seu pai.
Mal as duas moas chegaram em Londres, Millicent e Suzana apareceram.
- Estvamos ansiosas para contar a vocs - declarou Millicent - que a costureira vir aqui amanh a fim de cuidar de nossos vestidos.
- Aqui? - exclamou Katherine.
- Bem, voc sabe como mame condenaria qualquer coisa extravagante que eu escolhesse - argumentou Millicent.
- E meu pai - acrescentou Suzana - no pra de me Perguntar onde vamos ficar no fim de semana que inclui o
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dia vinte e trs.
- Por que no disse que era comigo? - disse Katherine
- Eu disse. Mas ele est desconfiado de alguma coisa sbre a tal festa.
- Diga que  na casa de uma de minhas amigas na aldeia, invente um nome - sugeriu Katherine. -  o que vou fazer com meu pai, mas s no ltimo instante.
- Errei em falar sobre o caso to cedo - lamentou Suzana. -  que papai fazia planos para ns irmos a uma fsta domingo, e eu tive de dizer que j estava comprometida 
para esse dia.
- Por Deus, tenha cuidado, Suzana - preveniu-a Katherine. - Sabe como nossos amigos so curiosos, e algum pode descobrir a verdade. Pessoa alguma vai acreditar, 
nem por um segundo, que o marqus tenha convidado oito debutantes para visitar Sherwood Park.
-  mesmo - concordou Millicent. - Prometo, Katherin, que terei bastante cuidado.
As quatro moas fizeram planos para o dia seguinte.
 noite, havia convidados para jantar na casa do conde Lavnia ia pr um de seus vestidos simples quando Katherine chamou-a e mandou que escolhesse qualquer traje 
em guarda-roupa, cheio de lindos modelos.
- Voc no vai querer que eu vista alguma dessas toaletes, vai? - indagou Lavnia.
- J usei todas elas, e detesto aparecer com a mesma roupa mais de duas vezes.
Devido  insistncia da amiga, Lavnia escolheu um vestido singelo, mas que lhe ficou muito bem.
Era branco com toques de cor-de-rosa; para complementar colocou uma rosa nos cabelos.
Os convidados para o jantar tinham mais ou menos a idade do conde, contudo, elogiaram Lavnia que se sentiu enbaraada.
Rupert Wick estava presente. Terminado o jantar, foi para perto de Lavnia.
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- Katherine est encantada por voc ter aceitado tomar parte no "teatrinho" - disse ele.
- Espero... no criar confuso... estragando tudo - replicou Lavnia humildemente.
- Garanto que no vai fazer nada disso. Voc  mais bonita que qualquer uma das coristas do Teatro de Variedades, que o marqus convida todas as noites para cear.
- Katherine diz que ele tem obsesso por elas! So mesmo... sedutoras?
Rupert hesitou um momento e disse:
- So muito interessantes, e mais glamourosas que outras da mesma profisso.
- Ouvi tanto sobre elas por Katherine - prosseguiu Lavnia -, que as considero mais importantes que qualquer mulher de Londres.
- Talvez tenha razo! - Rupert sorriu. - Pessoalmente acho-as fascinantes. E, para mim, no interessa que no tenham crebro, como dizem!
Lavnia concluiu que ele achava ridculo Katherine querer convencer o marqus de que o fato de as debutantes serem inteligentes e as coristas no consistia numa 
grande vantagem.
Ento, ela disse com certo receio:
- E se o marqus ficar zangado com voc, Rupert, por hav-lo enganado?
- Pensei nisso, Lavnia, mas ele tem bastante esprito esportivo, ningum pode negar; vai entender a brincadeira e rir muito depois.
No era o que Katherine esperava. No obstante, pensava Lavnia, no adiantaria contrariar os planos da amiga.
- No fique nervosa - aconselhou-a Rupert. - A nica coisa que voc tem a fazer, Lavnia,  sorrir como agora, e ficar muito bonita. O marqus "comer a isca" facilmente.
Rupert fitou-a com admirao e depois acrescentou:
- E, se ele no ceder ao primeiro contato, no resistir aos outros ataques.
Lavnia animou-se um pouco.
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Quando foi para a cama, no se sentia mais to assustada como antes.
No dia seguinte, as moas passaram a maior parte do dia experimentando os vestidos.
Para que os criados no tomassem conhecimento do que se passava, Katherine quase no utilizou o servio deles. Trancava sempre a porta do quarto na hora das provas.
Lavnia adorou todas as roupas; diferentes, sem dvida, dos vestidos que Katherine normalmente usava.
Foi informado  costureira que elas planejavam organizar uma pea teatral na casa de uma amiga, e que por isso precisavam de roupas de acordo com a ocasio.
- Temos de ter a aparncia de mulheres do palco explicou-lhe Katherine.
- Sei exatamente o que querem, milady. Estes trajes aqui so muito adequados para moas de teatro.
- Ouvi dizer que a senhora faz muitos vestidos para as vedetes do Teatro de Variedades - observou Katherine.
- Oh, sim, milady. E vrias delas so vestidas exclusivamente por mim. E note-se que no apenas s expensas de George Edwardes.
A costureira sussurrou as ltimas palavras, como se quisesse que as outras moas no a escutassem.
Mas Lavnia ouviu. E teve curiosidade em saber que coristas recebiam esses favores.
Porm, ao experimentar seus vestidos, esqueceu-se de tudo tal sua excitao ao se ver com uma aparncia to diferente da habitual.
Logo que a costureira retirou-se, Katherine deu uma caixa de cosmticos a cada uma das amigas.
Comprara-as numa loja especializada em artigos para teatro.
A caixa continha p facial, ruge, mscara para os olhos, um pequeno pincel e vrias esponjas.
- Agora o que tm a fazer  praticar na aplicao da maquilagem - comentou Katherine. - E muito cuidado para
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que ningum veja o que esto fazendo, ou haver perguntas na certa. O comentrio passar de boca em boca, e estaremos perdidas.
- Tomaremos muito cuidado - prometeram as meninas.
- No vai ser fcil aplicar a pintura nas primeiras tentativas - preveniu-as Katherine. - Como Lavnia sabe muito bem, muitas vezes ela e eu, nas peas de Natal 
l em casa, tnhamos um aspecto ridculo por usarmos pinturas pesadas demais.
-  verdade - confessou Lavnia. -  necessrio precauo para no parecermos palhaos.
- Mas. precisamos ter aspecto teatral! - insistia Katherine.
- Temos de treinar,  claro que temos de treinar - concordou Constance. - E sempre com a porta de nossos quartos trancada.
Todo o grupo foi embora divertindo-se a valer.
Lavnia achou-as muito bonitas sem artifcio algum, e lamentou que o marqus no as visse daquele jeito.
Porm mudou de ideia no dia seguinte quando Katherine a levou ao Teatro de Variedades, numa das matins de quarta-feira.
Durante o trajeto, Lavnia ia pensando ser aquela a mais excitante aventura de sua vida.
Como nunca fora a um teatro, impressionou-se at com o saguo de entrada.
No camarote, olhou  volta e constatou que a sala de espetculos era bem maior do que supusera.
Por no poderem ir sozinhas, tiveram de levar consigo a prima Jane que falava o tempo todo sobre o que assistira no Passado.
- Naturalmente - dizia ela -, a comdia musical  coisa nova, mas duvido que seja to boa como o teatro de meu tempo.
Katherine no prestava ateno ao que a prima dizia, nem mesmo disfarava sua indiferena.
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Porm Lavnia, por cortesia, ouvia-a com certo interesse.
Num dado momento, Lavnia indagou:
- Quem escreveu a pea que vamos assistir? Katherine manifestou surpresa.
- Ora, nem pensei que houvesse um autor.
- Mas deve haver - observou Lavnia, pensando no pai. Ela gostaria que um dos livros dele pudesse ser algum dia
adaptado ao teatro.
Ento, quando compraram o programa, Lavnia descobriu que o autor de A Vendedora era H. J. W. Donn.
O programa trazia tambm o nome do compositor musical, James Tanner.
Porm George Edwardes fora bastante ladino em colocar com letras garrafais seu prprio nome:
"Produzido sob a Direo Pessoal de George Edwardes."
To logo o pano de palco se ergueu, Lavnia extasiou-se com cada detalhe da pea.
Encantou-se com as estrelas, especialmente com Clia Loftus e Katy Seymour.
Mas foram as vedetes que a deixaram mais deslumbrada.
Considerou uma presuno imensa de Katherine e das amigas pretenderem imitar tanta fascinao!
Cada vez que as coristas apareciam no palco, ela mal podia respirar de tanto entusiasmo.
Apenas no final, quando o pano baixou em meio a aplausos estrondosos, ela voltou  realidade.
O show transportara-a a um mundo de sonho que ela jamais imaginara existir.
No caminho de volta  casa, Lavnia manteve-se em silncio. Apenas a prima Jane falava sem parar.
S ento Lavnia entendeu por que o marqus no queria gastar seu tempo com debutantes.
Como seria possvel ach-las interessantes, quando tinha chance de usufruir da companhia das deusas do teatro?
Elas pareciam ter sado de um quadro de Botticelli, ou de
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de outro grande mestre de pintura. 
pela primeira vez na vida, Lavnia admitiu que Katherine pretendia dar um voo alto demais!
Como uma mulher comum poderia competir com o irresistvel charme das coristas do teatro?

CAPTULO II
- O problema com voc, minha filha,  que tem um crebro de homem - o conde de Kenwick dissera certa vez a Katherine. - No devia ter nascido mulher.
Lavnia estivera presente na ocasio, e concordara com o conde.
Katherine possua esprito de criatividade e disciplina, e daria um excelente general de regimento, ou coisa parecida.
Em tudo que fazia, Katherine pensava nos menores detalhes.
E Lavnia apreciava-a cada vez mais na continuidade dos preparativos para o "teatrinho" do marqus.
Foi Katherine quem resolveu onde elas iriam trocar de roupa. Teriam de largar em Londres os vestidos comuns e pr os que usariam na viagem para Sherwood Park.
Katherine foi a uma agncia onde se alugavam casas para curto espao de tempo. Explicou ao gerente que algumas amigas americanas iam chegar a Londres a fim de passar 
uma semana, e no desejavam ficar em hotis.
De fato, grande nmero de proprietrios de manses em Londres j haviam voltado para o campo, pois a temporada terminara. Por isso encontrou com facilidade uma excelente 
casa perto de Grosvenor Square. Era bem mobilada, com apenas dois velhos caseiros para cuidar do local.
Eles no precisariam, portanto, se preocupar com o que Katherine e as amigas faziam, e no tinham chance de conversar com outras pessoas, pois pareciam pouco comunicativos.
- Temos de ter cuidado - Katherine recomendou s me-
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ninas -, em primeiro lugar, com nossas criadas de quarto, que vo preparar as malas, e em segundo lugar com o cocheiro que nos conduzir  estao.
- Nesse caso, como vamos chegar  estao? - indagou Suzana.
- Rupert providenciar a carruagem para ns. Mas antes temos de ir  tal casa alugada para trocar as roupas das malas. Os trajes de coristas j devero estar l, 
esperando por ns.
Lavnia achou o plano da amiga estupendo.
Katherine no ignorava que qualquer pequena suspeita se espalharia rapidamente pela cidade e chegaria aos ouvidos dos empregados de Wick House, em Londres.
Dris, a mais mimada do grupo, queixou-se com petulncia:
- Nunca arrumei malas em minha vida sem o auxlio de uma criada.
- Coristas no tm empregadas - replicou Katherine com energia. - Mas, em Sherwood Park, com certeza uma criada de quarto cuidar de voc.
Dris teve de se contentar com isso, e Katherine passou para outro detalhe.
Fizera frio j em outubro, e agora, em novembro, o tempo piorava.
- Precisamos de peles - disse ela. - No sei se nossos casacos de l sero suficientes.
Suzana riu e disse:
- Garanto que as vedetes tm chinchila, zibelina e arminho, e desprezariam qualquer outro tipo de agasalho.
- Foi o que pensei - admitiu Katherine. - Peguem alguma coisa de suas mes; e, se no for suficiente, posso conseguir algo pertencente  minha.
Lavnia nada disse. O casaco que ela usava no inverno era modesto demais para a ocasio. Levara uma graciosa capa de pele que fora da me, mas sem muito valor.
- Tenho um abrigo especial para voc, Lavnia - decla41
rou Katherine, como se adivinhasse a preocupao da amiga.
Quando Lavnia viu a capa de veludo azul comprida at os joelhos, que lhe fora destinada, encantou-se.
Era forrada de pele branca muito macia. E em volta do pescoo e ao longo da frente havia uma larga barra de arminho.
Lavnia experimentou-a e achou-a lindssima.
- Mame usava-a quando ia  pera - explicou Katherine. - Mas acho que uma corista a usaria numa viagem no vago particular do marqus.
- Tomarei bastante cuidado com ela, Katherine - prometeu Lavnia.
- E tambm com as jias de mame que voc vai usar, espero! - Katherine riu muito.
Lavnia exultava de alegria.
- vou usar jias? - perguntou.
- Mas claro! Todas as vedetes tm jias que valem uma fortuna.
- O sr. Edwardes providencia tambm jias para elas juntamente com os vestidos? - interrogou Lavnia, bastante intrigada.
- No, meu amor - respondeu Katherine sorrindo. Elas possuem admiradores que as cobrem de jias, como se fossem princesas indianas.
Assim que falou, Katherine arrependeu-se. Lavnia era uma menina ingnua, criada no campo, sem contato algum com a vida mundana de Londres.
Era o oposto das outras moas, bem sofisticadas, e que provavelmente tinham irmos ou primos que se divertiam com as artistas do teatro.
Gastavam rios de dinheiro com elas, e deixavam de vez em quando escapar, em conversa, as extravagncias que faziam com esse tipo de mulheres.
Certa vez fora o pai de uma de suas amigas, Katherine lembrava-se muito bem disso, que se apaixonara por uma vedete. "Mame ficou muito infeliz", a amiga dissera, 
"e 
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depois furiosa ao descobrir que papai dera um colar de diamantes a essa mulher. Mame chorou muito. "
Katherine no pretendia entrar em pormenores com Lavnia, Pois considerava um dos grandes atrativos da amiga sua inocncia e pureza.
"Logo que tudo isso acabar, vou apresent-la a rapazes honestos e charmosos e espero que ela encontre um marido rico", dizia Katherine a si mesma.
Sentia-se, contudo, culpada por haver negligenciado Lavnia por tanto tempo, sem manter contato algum com ela.
"Fui egosta", pensava "principalmente considerando-se que crescemos como irms. "
Mas, naquele instante, preparava-a para o inebriante mundo social onde esperava introduzi-la em breve.
Preocupava-se muito com a vestimenta que a amiga iria usar, com o fito de impressionar o marqus.
Um dos vestidos mais bonitos de Lavnia era azul plido, como o cu de primavera.
A cor combinava com seus olhos, e tornava-lhe a pele mais alva.
Ficou decidido ento que Lavnia usaria s azul durante a visita na casa do marqus. Seria su"a cor exclusiva.
Por ordem de Katherine, as outras moas poderiam escolher qualquer outra cor, exceto o azul. E ningum ousaria desobedecer as ordens da chefe do grupo.
Suzana ficava muito bem de verde, e Dris de lils.
Millicent tinha um vestido preto e branco que a fazia muito chique, um tanto dramtica, tal qual uma modelo de Paris.
- vou emprestar de minha me um colar de diamantes
- declarou ela. - S peo a Deus que no suma de meu Pescoo.
- Voc se atreveria a usar colar to valioso? - indagou Constance.
- No acredito que o marqus o roube - comentou Milucent rindo. - Mame vai viajar neste fim de semana, e no levar o colar.  luxuoso demais para a viagem.
Al
Todas as moas do grupo conseguiram jias valiosas e exibiam umas s outras.
Katherine levou consigo um estojo contendo algumas jias da me.
- Quase peguei a tiara! - disse ela. - Mas at o marqus a consideraria demais para uma corista.
Todas as moas riram.
Lavnia entusiasmou-se com o colar de prolas e os brincos que Katherine lhe emprestou.
As meninas chegaram  casa de Grosvenor Square uma de cada vez.
Seguindo as instrues de Katherine, todas elas dispensaram as carruagens que as conduziram at l, no sem antes pedir aos lacaios que colocassem as malas no hall.
Elas informaram aos cocheiros que outras carruagens as transportariam para o local onde passariam o fim de semana.
Assim que todas as meninas chegaram, Katherine trancou a porta da frente.
Comearam ento a esvaziar as malas, enchendo-as de novo com as roupas fantsticas de coristas, que haviam sido levadas para l de manh bem cedo.
Lavnia fez tudo bem rapidamente, pois sempre cuidara de si mesma. Nunca tivera problemas de espcie alguma.
Mas percebeu que algumas das amigas de Katherine tinham dificuldade em organizar suas coisas sem auxlio de uma criada.
No obstante, Katherine e as moas que haviam frequentado colgio interno tambm se arrumaram depressa sem a ajuda de criadas de quarto.
Os vestidos retirados das malas foram levados ao segundo andar e pendurados nos guarda-roupas.
- Tenho de apanh-los na volta, segunda-feira de manh - comentou Katherine. - E se os deixarmos jogados por -a, ficaro muito amassados.
Foi um conselho prtico no qual as outras moas no haviam pensado.
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Todas estavam muito excitadas com seus trajes extravagantes.
Lavnia, naturalmente, vestia azul, e um chapu enfeitado com pequenas penas de avestruz, diferente de qualquer outro que j tivera. E tudo pago pela me de Suzana.
Mas, antes de colocarem o chapu, Katherine recomendou a todas que fizessem a maquilagem.
Como j haviam praticado bastante, o resultado foi satisfatrio.
Quando enfim Lavnia olhou-se no espelho, sups que nem mesmo seu pai a reconheceria. Estava muito atraente.
Porm, no teve dvida de que a me no aprovaria aqueles lbios rubros e os clios artificialmente negros. Seus olhos ficaram ainda maiores.
- Voc est linda! - Katherine exclamou quando a viu.
- Acho que ningum me reconhecer - disse Lavnia.
- Espero que o mesmo acontea com todas ns - observou Dris. - Tive muito cuidado de, durante esta semana, no ir a nenhuma festa onde poderia encontrar amigos 
do marqus, que foram convidados para a caada.
- Isso seria pouco provvel - observou Lavnia.
- Por qu? So todos da mesma idade e devem ter os mesmos interesses.
- Que idade tem o marqus?
Lavnia no tivera curiosidade de fazer essa pergunta antes.
- Acho que mais ou menos vinte e nove ou trinta anos. Lavnia surpreendeu-se. Pelo modo como as meninas falavam dele, imaginava-o muito mais velho.
- Ele nunca faz amizade com homens muito jovens mterrompeu-as Katherine, que ouvia a conversa com ateno - excetuando-se Rupert; mas isso se explica por meu tfmo 
ser excelente cavaleiro.
Lavnia sabia que era verdade, pois convivera com Rupert e Katherine desde criana. E ambos destacavam-se na arte da equitao.
Uma coisa deixara Lavnia extremamente feliz. Foi quan4S
do Katherine disse que todas podiam levar os trajes de montaria.
- No aguento de vontade de montar os cavalos do marqus! - exclamou Millicent.
- No vai ser fcil convenc-lo a nos deixar cavalgar explicou Katherine. - Rupert me contou que poucas coristas so boas na montaria, e o marqus nunca imaginar 
que ns o somos.
- Ento, mais uma surpresa para Sua Senhoria! - caoou Constance.
Lavnia preocupou-se logo com seu traje de montaria, bastante velho. Porm Katherine acalmou-a:
- Tenho um para voc, Lavnia, e  sensacional! No o usei ainda por ach-lo vistoso demais. Mame e eu fomos a outro alfaiate, no o nosso costumeiro, e ele confeccionou 
para mim um traje espalhafatoso. bom para uma vedete, creio,
Lavnia fitou-a espantada e Katherine explicou-se melhor:
- No  o que voc est pensando, no. Acentua demais a cintura e  muito rebuscado. No prprio para caadas comuns, pois as roupas de montaria so em geral bem 
discretas. Graas a Deus temos quase as mesmas medidas, Lavnia. Pode usar minhas botas tambm, embora fiquem um pouco folgadas em voc.
Lavnia nem a ouvia. Pensava no prazer que teria ao cavalgar magnficas montarias.
Desde que Katherine mencionara o marqus, ela procurara o nome dele no jornal. E achava-o constantemente nas colunas de esporte. Havia inmeras referncias a seus 
cavalos de corrida em Newmarket, e a seus estbulos em Sherwcod Par k.
As cavalgadas pela manh foram outra coisa que Lavnia sentiu falta na ausncia de Katherine.
Elas apostavam corridas e se desafiavam mutuamente para saltar obstculos.
Quando se recordava do passado, Lavnia tinha a impres46
so de que passara a infncia e a adolescncia rindo sem parar.
Sim, tudo fora muito divertido.
Agora, outra vez com Katherine, era como se o sol tomasse a brilhar em sua vida.
- Prontas? - indagou Katherine.
- Sim - responderam as moas em coro. Envolvidas em peles e com regalos combinando, estavam
perfeitas, mas Katherine era a mais elegante do grupo.
No obstante, Lavnia achou que nada poderia ser mais espetacular que sua capa de veludo azul enfeitada de arminho.
- No instante que pusermos os ps fora desta casa instruiu-as Katherine -, perderemos a identidade. - Inicia-se nosso "teatrinho". Cuidado com os nomes que escolheram 
e lembrem-se de que estivemos em Birmingham apresentando a pea A Garota, e que seguiremos para Manchester segunda-feira.
Ela fez uma pausa antes de acrescentar:
- Falem o menos possvel sobre teatro, mas encham a cabea de Sua Senhoria com outros assuntos. Todas vocs possuem inteligncia suficiente e podem demonstrar seus 
talentos o tempo todo.
To logo ela acabou de falar, as moas caram na gargalhada. Achavam a situao hilariante.
Katherine abriu a porta do quarto e desceu as escadas acompanhada pelo grupo.
Rupert esperava-as no hall, em p, no meio da bagagem, e elegantemente vestido.
- Estamos prontas, Rupert - informou Katherine. As carruagens j chegaram?
- Esperam l fora - confirmou Rupert. - Posso dizer aos cocheiros que venham apanhar as malas?
- Sim, por favor, Rupert. Ele abriu a porta da frente.
Havia trs veculos na rua. A bagagem foi toda colocada num deles e as oito moas e Rupert acomodaram-se nos outros dois.
Al
Katherine, Lavnia, Millicent e Rupert foram juntos.
- Queria antes de tudo lhes dizer - observou ele assim que os cavalos se puseram em marcha - que vocs esto estupendas.
Rupert olhou para Lavnia ao falar, e ela corou muito.
- Preciso confessar-lhe, Katherine, que quando voc tem uma de suas brilhantes ideias, sabe como execut-la - acrescentou ele.
- Meu nome agora  Kathy! - corrigiu-o a irm. -  necessrio termos cuidado com nossos nomes de coristas.
- Entendi - replicou Rupert. - Desculpe, esqueci-me. E posso dizer a Vina que se ela de fato estivesse no palco faria parar o show?
- Agora voc me faz ficar invejosa, Rupert! - protestou Millicent.
O modo como Millicent falou fez Lavnia pensar que havia algum interesse da parte dela em Rupert. Ele tomou-lhe a mo, beijou-a e disse:
- J lhe declarei mil vezes, Millicent, que a acho linda. Mas voc parece no me ouvir!
- Bem, neste fim de semana o ouvirei - prometeu Millicent. - E cuide de mim, por favor. No quero me meter em dificuldades com os amigos do marqus. Afinal, eles 
pensam que somos vedetes, e sabe o que esperam de ns.
Lavnia mostrou-se apreensiva, e Katherine logo confortou-a:
- No haver problema, querida. J disse a todas que tranquem a porta do quarto na hora de dormir. Se isso surpreender os rapazes, tanto melhor!
- Por que trancar a porta do quarto? - indagou Lavnia com ingenuidade.
Aps certa hesitao, Katherine murmurou:
- Sabe, estamos desacompanhadas, e se alguns rapazes beberem demais, podem se portar sem muita dignidade.
- Mas no vo... entrar... em nossos quartos, no  mesmo? - gaguejou Lavnia.
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-  possvel que tentem pregar uma pea na gente. Mas, tranque a porta, esquea-se de tudo e durma.
- Kathy tem razo - confirmou Rupert. - Voc no ser perturbada durante seu sono.
- No... espero que no... - concordou Lavnia.
Ela no percebeu os olhares significativos de Katherine a Millicent que estava a ponto de revelar alguma coisa.
No obstante, Lavnia no podia deixar de admitir que sua me no aprovaria a permanncia dela na casa de um rapaz solteiro, sem uma dama de companhia. Mas era tarde 
demais para pensar nisso, e a nica medida a tomar seria seguir os conselhos de Katherine.
Assim que chegaram  estao ferroviria, Rupert escoltouas at o trem.
Carregadores incumbiram-se da bagagem.
Lavnia nunca viajara numa vago particular, e o do marqus era algo de notvel. Era o ltimo, e trs empregados com a libr de Sherwood serviam os passageiros.
Os assentos confortveis tinham almofadas de veludo vermelho.
Logo que todos se acomodaram, os criados serviram champanhe, sanduches de pat, e deliciosos petits-fours.
Lavnia adorou tudo, incluindo o percurso, pois poucas vezes viajara de trem. E sempre na companhia do pai, em vago de segunda classe.
As moas riram muito durante o trajeto todo, to excitadas estavam.
O trem enfim parou numa pequena plataforma onde se lia em letras bem grandes:
"Parada para Sherwood Park"
O vago do marqus posicionou-se exatamente no centro da plataforma, onde havia um tapete vermelho.
Um lacaio do marqus os aguardava.
Duas carruagens conduzidas por cavalos de raa esperavam pelos hspedes, e numa carroa foi colocada a bagagem.
Os visitantes ocuparam os carros na mesma distribuio
4Q
da viagem anterior. Millicent foi a primeira a falar:
- Agora, ergue-se o pano e o espetulo tem incio!
- No se esquea de que haver dois atos - preveniu-a Katherine. - Um para hoje, e outro para amanh. E eu matarei aquela que se esquecer do papel.
- Ora, vamos! - repreendeu-a Rupert. - Voc est levando as coisas muito a srio. Trata-se de uma piada e talvez seja boa ideia contarmos tudo ao marqus amanh 
mesmo, em vez de deixar para mim a incumbncia desagradvel de fazer isso aps a retirada de vocs.
- No senhor! - gritou Katherine. - Iremos at o fim, e s depois que sairmos ele conhecer a verdade!
Lavnia concordava com a amiga. Seria embaraoso para o marqus se ele viesse a saber, na presena delas, que fora enganado. Ficaria na certa humilhado e furioso, 
mesmo que Rupert no concordasse com isso.
Porm ele sacudiu os ombros e prometeu executar as ordens da irm.
- Muito bem - disse. - No precisa ficar brava. Prometi ajud-la e irei at o fim.
- Ir mesmo! Isso eu sei, e estou muito agradecida. Mas todos ns sabemos que, se alguma coisa sair errada, teremos de nos haver com nossos pais. E olhe l, no 
vai ser fcil!
- Concordo! - admitiu Rupert, sacudindo a cabea. Mas sei que Sua Senhoria se portar como um cavalheiro, e no vai "entomar o caldo", como se diz.
- Se ele o fizer - interps Millicent -, papai ficar furioso no apenas comigo mas com voc, Rupert!
- J lhe disse, Millicent, que ningum jamais tomar co nhecimento do que estamos fazendo - insistiu Katherine firmemente. - A nica coisa que Rupert tem a fazer 
 seguir minhas instrues.
- Tudo bem! Tudo bem! E chega de falar, Katherine declarou o irmo. - Prometi ajud-la, portanto, pare de me amolar!
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Katherine abraou-o com carinho, dizendo:
- No ralhe comigo! Voc tem sido maravilhoso at agora, e no poderemos falhar daqui por diante.
Rupert sorriu e disse:
- Lembre-se do velho e consolador adgio: "Tudo vai sair bem, porque ns assim o desejamos"!
- Reze para que isso acontea - observou Millicent. Eu, alm de rezar, estou usando meu talism.
Ela ergueu o brao e mostrou-o.
Era uma pequena moeda presa a uma corrente de ouro.
- Que  isso? - indagou Lavnia.
- Meu padrinho me deu quando eu fui batizada - explicou Millicent. -  uma moeda de pouco valor, mas com banho de ouro.
- Por que um banho de ouro numa moeda de to pouco valor? - perguntou Katherine espantada.
- Meu padrinho ganhou-a quando muito jovem, e muito pobre tambm, sem perspectivas para um futuro melhor.
- E trouxe-lhe boa sorte? - interrogou Lavnia.
- Ele disse que sua sorte virou no momento em que a recebeu. Dali por diante tudo correu bem em sua vida. Ele tomou-se lorde Stewart pela morte inesperada do tio 
e de seu herdeiro direto, ficando proprietrio de enorme fazenda e imensa fortuna.
- Que histria fantstica! - exclamou Katherine. - com certeza essa moeda lhe trar felicidade tambm, fazendo-a casar-se com um prncipe ou um milionrio!
- Espero que voc tenha razo - observou Millicent. Mas at agora esses tais pretendentes no apareceram.
Ela fitou Rupert que tinha os olhos postos no talism.
Lavnia sabia que, mesmo que os dois se amassem, Millicent no poderia casar-se com Rupert. Era o filho mais jovem e jamais herdaria o ttulo do pai; e Millicent 
era filha de um duque.
Lavnia recordou-se do que Katherine dissera. O pai de Millicent no aceitaria Rupert como genro, por maior que fosse
o amor existente entre os dois.
"As convenes sociais esto muito erradas", concluiu ela. Mas nada se poderia fazer em contrrio!
Um quarto de hora mais tarde o grupo pde divisar, bem ao longe, Sherwood Par k.
Para Lavnia, foi a casa mais linda e maior que j conhecera ou imaginara.
Aprendera com o pai muita coisa sobre arquitetura, por isso Lavnia logo viu que tinha sido construda em meados do sculo anterior, pelos irmos Adam.
No teto havia urnas e esttuas silhuetadas contra o cu.
Duas alas laterais se estendiam a perder de vista.
Na frente da casa, uma graciosa ponte cruzava um lago indo at o ptio.
Ningum falou enquanto os cavalos no pararam.
Aos ps de um longo lance de escadas com passadeira vermelha, vrios lacaios abriram as portas das carruagens.
Um mordomo de cabelos grisalhos recebeu-os  porta. Cumprimentou Rupert, respeitosamente, pois j o conhecia.
Depois saudou as moas, ajudando-as a tirar os agasalhos.
O hall era imenso. Nichos com esttuas gregas espalhavamse por toda parte, e uma escadaria entalhada fazia a comunicao do hall com o segundo andar.
O mordomo conduziu o grupo todo a uma sala e anunciou:
- O muito honrado sr. Rupert Wick, milorde, e as senhoritas de Londres.
Esse era, na verdade, o incio do espetculo, pensou Lavnia.
Por segundos ela pde apenas observar a beleza da sala onde entraram. No era bem um salo, mas uma biblioteca que faria a delcia de seu pai.
Quadros magnficos e enormes quantidades de livros enchiam as paredes por completo.
A moblia era elegante, mas tambm confortvel. Havia macios sofs e poltronas onde se podia relaxar aps um dia
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cansativo na prtica de esportes.
No seria necessrio dizer que os homens que se ergueram quando as moas entraram tinham cavalgado a manh toda.
Um deles destacou-se do resto e aproximou-se. Lavnia notou que estava frente a frente com o marqus. Alto, espadado, atraente, pde ento entender a razo de todos 
se encantarem com ele.
Tinha tambm um ar autoritrio, diferente dos outros homens.
Lavnia logo pensou que talvez estivesse sendo influenciada pelo que ouvira, e no pelo que constatava com seus prprios olhos.
- Aqui estamos! - declarou Rupert. - Agora, deixeme apresent-lo s moas.
Houve uma pausa antes de ele comear:
- Esta  Milly Mills, um grande sucesso na pea As garotas.
- Muito prazer em receb-la em Sherwood Park - disse o marqus, apertando-lhe a mo.
Em seguida Rupert apresentou sua irm como "Kathy", Dris como "Dolly", Suzana como "Susie", e as demais, no se esquecendo dos nomes adotados.
Lavnia foi a ltima.
- Esta  Vina Vern.
Lavnia estendeu-lhe a mo e o marqus apertou-a com fora. Ela sentiu uma vibrao estranha.
Ele era bem diferente do que esperara. Katherine havia dito que o marqus no passava de um convencido, mimado, cnscio de sua importncia. E ela acreditara.
Estaria Katherine certa?
Na verdade, no deixava de ser ridculo a um homem daquela idade ter obsesso por vedetes. No obstante, s pelo modo como ele cumprimentou as meninas, Lavnia percebera 
tratar-se de pessoa de impressionante personalidade e de carter firme.
Depois de saudar as recm-chegadas, o marqus
apresentou-as aos amigos, todos mais ou menos da idade dele, e verdadeiros gentlemen.
O champanhe foi servido e Lavnia apenas provou-o.
Em sua casa no se bebia nunca, a no ser no Natal e nos aniversrios. E ela no queria de forma alguma obscurecer sua capacidade mental.
Temia cometer erros e aborrecer Katherine.
Logo que terminaram de beber, o marqus sugeriu que subissem para descansar.
- Garanto que gostariam de repousar um pouco antes do jantar - disse ele.
- Boa ideia - concordou Katherine -, embora no estejamos cansadas, pois nossa viagem foi muito confortvel. Queremos agradecer Vossa Senhoria por nos ter proporcionado 
um meio to agradvel de viajar.
O marqus sorriu.
- Alegro-me por haverem apreciado meu vago.
-  novo? - indagou Katherine.
-  novo, sim. O que voc achou? - interrogou o marqus, dirigindo-se a Lavnia.
Ela no esperava ser interpelada, e assustou-se.
- Eu... eu... gostei muito, milorde. Porm estou ainda mais encantada com sua maravilhosa residncia. Posso ver que foi planejada pelos irmos Adam.
- Rupert mencionou algo a voc sobre isso?
- No, mas eu reconheceria o estilo imediatamente, sem necessidade do auxlio de ningum - replicou Lavnia.
O marqus lanou a ela um olhar meio desconfiado.
Lavnia percebeu que Katherine adorara sua resposta.
A governanta, toda de preto, aguardava pelas moas no topo da escada.
Levou-as aos respectivos quartos, todos no mesmo piso. Cada detalhe da manso deslumbrava Lavnia.
No quarto, uma empregada esvaziava sua mala e pendurava os vestidos no guarda-roupa.
Lavnia foi at a janela e apreciou a vista. O jardim descia
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en rampa at o lago. Do outro lado, havia um enorme parque onde coras passeavam sob as rvores.
Anoitecia e, muito breve, estrelas brilhariam no cu, e talvez a lua.
Tudo era lindo, um colrio para os olhos. Lavnia apenas tivera chance de ler nos livros da biblioteca do pai acerca de manses daquela poca. Jamais visitara uma 
sequer.
Porm sua me, quando menina, passara temporadas em muitas das mais importantes casas inglesas do mesmo tipo.
"Aposto que mame gostaria de saber que estou aqui", Lavnia dizia a si mesma.
Mas tambm no ignorava que a me reprovaria o que estava fazendo. Acima de tudo, o modo como pintara seu rosto e olhos.
Lavnia deitou-se por alguns minutos. Uma empregada logo entrou com a gua do banho, com essncia de violeta, num grande recipiente de lato. Colocou-o em frente 
 lareira.
Uma toalha bem macia foi posta diante do fogo para ser aquecida.
Lavnia lera sobre tudo aquilo, porm jamais sonhara que coisa semelhante pudesse acontecer com ela.
Antes de se vestir, sentou-se  penteadeira para refazer a maquilagem. A empregada arrumou-lhe os cabelos.
Estava quase pronta quando um lacaio bateu na porta, trazendo enorme bandeja cheia de flores naturais.
Lavnia sabia ser esse um costume de casas senhoriais: oferecer flores s convidadas.
Eram tantas que ela hesitou em escolher uma para si.
A criada sugeriu:
- Acho que as orqudeas brancas combinam com a senhorita. Ponha algumas nos cabelos.
Ela apanhou ento algumas flores pequenas e viosas, e colocou-as na cabea de Lavnia.
- Obrigada - ela agradeceu, achando que esse era o detalhe que faltava  sua toalete.
O lacaio retirou-se, levando a bandeja de. flores para as
outras moas.
Por sugesto de Katherine, Lavnia ps um vestido azul. "A primeira impresso  a mais importante", dissera ela.
O vestido era bonito, com babados de chiffon azul que iam at o cho formando uma pequena cauda.
Mas, na opinio de Lavnia, um pouco decotado demais.
Contudo, Katherine insistira que uma vedete tinha de se vestir assim.
O colar de turquesa e diamantes emprestado pela amiga disfarava o exagero do decote.
Logo depois que colocou os brincos, a empregada exclamou:
- A senhorita est linda! Adoraria v-la no palco!
- Talvez voc me veja algum dia, se for a Londres - respondeu Lavnia.
-  o que espero, miss. Sabemos que Sua Senhoria o marqus as aprecia todas as noite de seu camarote, e as leva para cear no Romano's. Ele  um verdadeiro conquistador, 
isso ele , e ns o admiramos muito!
"Conquistador." Lavnia achou a palavra bem adequada ao marqus.
Katherine apareceu na porta.
Estava linda de cor-de-rosa com uma estola de plumas e saia bem rodada. Usava um colar, brincos e broche de diamantes.
- Voc est muito bonita, Katherine! - exclamou Lavnia.
- E voc tambm! Venha, no podemos chegar atrasadas para o jantar.
As duas desceram, lado a lado.
O mordomo conduziu-as  enorme sala de jantar, repleta de flores e iluminada por trs lustres de cristal com todas as velas acesas.
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" tal qual um pas de fadas", pensou Lavnia. Nesse instante ela viu o marqus, vestido a rigor. "E ele  o prncipe encantado", completou seu pensamento.

CAPTULO IV
Lavnia olhou a sua volta, e concluiu estar no mais lindo salo do mundo.
As paredes eram verdes com frisos brancos e dourados.
O mrmore do aparador era sustentado por esculturas gregas, donzelas artisticamente buriladas.
A prataria brilhava na mesa, e Lavnia achou que mulher alguma poderia ser mais atraente que sua amiga Katherine, uma verdadeira rosa em boto.
O marqus fez Millicent sentar  sua direita e Lavnia  esquerda.
Sendo filha de duque, o lugar de honra caberia mesmo a Millicent; porm, tudo fora obra do acaso, pois o marqus ignorava quem era Milly.
"Mas, por que eu to perto dele?", refletia Lavnia.
Era impressionante notar o contraste entre a sofisticada Millicent e a ingnua Lavnia.
Por ordem de Katherine, todas as moas conversavam alegremente sobre os mais variados assuntos, mas nada sobre teatro ou vida de artista.
Pareciam divertir muito seus companheiros.
O marqus dirigiu-se primeiro a Millicent.
Lavnia apreciava a tela colocada acima do aparador quando ele disse:
- Acho, Vina, que voc est gostando de minha casa; acertei?
-  lindssima! Admirava agora seu Van Dyke. , por acaso, o retrato de algum de seus antepassados?
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- Como voc sabe que  um Van Dyke? - perguntou o marqus. Lavnia sorriu.
- No me enganaria. Reconheo as mos que so pintadas de modo to brilhante.  uma caracterstica de Van
Dyke.
O marqus surpreendeu-se, mas nada disse. Limitou-se a perguntar:
- E o que mais a agrada em particular nesta sala, Vina?
Lavnia olhou  volta antes de responder:
- Admiro tudo. E garanto que sua mesa  da poca da Regncia, e deve datar de quando o prncipe regente resolveu suprimir a toalha de mesa em Carlton House e estabelecer 
a moda de mesas polidas e nuas.
O marqus comeou a pensar que Vina fora instruda a falar com ele daquela maneira. Enfim, julgou tratar-se de uma lio decorada.
Mas, quem poderia ter sido o professor?
De acordo com Rupert Wick ela sempre morara nas provncias, nunca em Londres. E era tambm muito jovem para tantos conhecimentos.
Ele no se lembrava de ter encontrado em sua vida uma vedete demonstrando interesse por decorao, quadros e mveis de estilo.
Como era possvel uma menina to simples saber tanto?
- Voc est certa - concordou o marqus. - E gosta de minha prataria?
- Claro!
- E a que perodo acha que pertence?
Lavnia hesitou um pouco antes de responder, e o fez com niuita humildade:
- Posso estar enganada, mas penso que  do reinado de George II ou in.
- Por que diz isso?
- Porque  de linhas simples e, pelo que li e vi em ilus59
traes, a praiana s ficou mais elaborada depois que Geor. g IV tomou-se prncipe de Gales.
- Tem razo - anuiu o marqus. - Mas por que, ad. mirando casas como voc admira a minha, escolheu essa pr. fisso? Por favor, conte-me o que a levou a tal.
Lavnia sacudiu a cabea num gesto negativo e pediu:
- Prefiro continuar falando sobre sua linda casa. Meu nico receio  no ter tempo de ver tudo antes de sair.
O marqus riu muito.
- vou providenciar para que seu desejo seja satisfeito,
- Obrigada - agradeceu Lavnia. - Eu vinha pensando, quando cheguei nesta sala, que entrava num pas de fadas.
- Se isso  verdade, devo fazer com que todos os seus sonhos se realizem.
Como ela nada dissesse, o marqus continuou:
- Deve haver alguma coisa que voc deseje mais que qualquer outra. Como tenho uma varinha mgica, diga-me o que quer.
Lavnia no pde evitar de rir.
- O que eu desejo  algo impossvel de se obter, e a mais generosa fada madrinha no me poderia dar.
- Voc me desafia - protestou o marqus. - E, sendo eu o dono deste pas de fadas, garanto que vencerei todas as dificuldades, por mais intransponveis que paream.
- J lhe disse, meu desejo  impossvel de ser realizado.
- Nada  impossvel para mim, eu lhe afirmo. "Qual ser o desejo dela?", pensava o marqus, supondo
logo que implicaria grande despesa. Imaginava todo tipo de resposta.
- Estou esperando, Vina.
- Muito bem, mas j o preveni de que meu desejo  impossvel de ser satisfeito. Gostaria de ir ao Tibete.
O marqus arregalou os olhos.
- Ao Tibete? - repetiu ele.
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- Acabei de ler o livro mais maravilhoso e emocionante sobre o assunto. Chama-se Lhasa in Disguise.
Ela no esperou pela resposta do marqus e prosseguiu:
- A histria  contada com tanto brilhantismo que eu me senti caminhando passo a passo por aquelas paragens que o autor descrevia.
Ela respirou fundo antes de continuar:
- Enxerguei os mosteiros construdos nas encostas das montanhas, os monges com seus paramentos amarelos, os peregrinos galgando penosamente os atalhos pedregosos. 
Depois...
Ela fez uma pausa como se tivesse dificuldade em descrever o que sentiu.
- depois, eu atingi o Lhasa, vi o Potala, conhecido tambm como Montanha Vermelha, onde fica o palcio do Dalai-Lama! E vislumbrei tambm o Dalai-Lama.
Havia respeito no tom de voz de Lavnia. O marqus percebeu que ela no representava, porm sentia na verdade o que revelava. Aps segundos de silncio, ele sussurrou:
- Tm razo, Vina,  impossvel a voc ir ao Tibete; mas, de qualquer modo, esteve l em sua imaginao.
-  como costumo viajar pelo mundo, especialmente pelos lugares onde papai j esteve.
Lavnia falou sem pensar, e arrependeu-se logo da referncia feita ao pai.
- Que faz seu pai? - interrogou o marqus.
- Est escrevendo um livro.
Ela no quis dizer que o pai j escrevera vrios.
O marqus poderia ter lido algum, embora fosse pouco Provvel.
Katherine ficaria furiosa se qualquer coisa fosse revelada comprometendo o plano bem elaborado.
O marqus poderia suspeitar que ela no era o que fingia ser: uma corista.
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- Suponho - ele ia dizendo - que seu pai lia para voc o que escreve, e  por isso que tudo lhe parece to real.
- Certo - concordou Lavnia. - E, por ler ele to bem tenho a impresso de ver a imagem das coisas com muita clareza.
- E sobre o que escreve ele no momento?
Lavnia achou que no haveria inconvenincia em lhe contar a verdade.
- Sobre a ndia - disse.
- E voc acha o assunto interessante, aposto - opinou o marqus. - Acabei de chegar da ndia, e considero o pas fascinante!
- Oh, diga-me, por onde andou? - suplicou Lavnia. Viu o Ganges?
- Vi.
- E viu os peregrinos banhando-se no rio, acreditando ser especialmente abenoado?
- Vi isso tambm!
- O senhor  um homem feliz! Porm onde eu mais gostaria de ir era ao Sarnath, o lugar onde Buda fez seu primeiro sermo.
Aps uma pausa o marqus indagou:
- Onde fica mesmo o Sarnath?  perto de Benares?
- Sim, bem perto do parque dos veados. Qualquer guia teria levado o senhor l. Papai sentiu nesse lugar maravilhosa sensao de paz.  difcil explicar a razo, 
mas papai supe que, pelo fato de o prprio Buda ter estado ali, as vibraes de f que ele evocou permanecem indefinidamente, e  impossvel no se ficar consciente 
disso.
O marqus estava to estarrecido com o modo de Lavnia falar, que a encarava, atnito.
Tratava-se da vedete mais fora do comum que conhecera.
Devido ao silncio dele, Lavnia de repente receou ter dito algo inconveniente.
- Por favor, continue falando da ndia - pediu. - Por
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certo conheceu o vice-rei, uma experincia interessante,
no?
- Eu preferiria ouvir de voc o que seu pai achou da ndia, Vina.
- Mandarei o livro dele para o senhor, to logo seja publicado - prometeu Lavnia.
Ela no teve chance de falar mais, porque Millicent chamou a ateno do marqus. Queria que ele resolvesse um problema surgido entre o homem a seu lado e ela.
O cavalheiro insistia que o derby de dois anos atrs fora vencido por um cavalo de nome Jpiter.
E Millicent garantia ter sido por um chamado Swift.
- Milly tem razo, George - disse o marqus. - E agora, voc ter s duas sadas; pedir desculpas a ela ou pagar uma multa por sua ignorncia.
- Acho que Milly prefere a multa - replicou o rapaz com um sorriso brejeiro.
E prometeu a Millicent que, quando voltassem a Londres, a levaria a Bond Street.
E ela poderia escolher l o que quisesse.
Lavnia assustou-se quando viu que Millicent acatara a sugesto prazerosamente.
Ento, lembrou-se de que, quando sassem de Sherwood Park, os cavalheiros que ali estavam nunca mais as veriam.
Sorriu  ideia de que aqueles aristocrticos senhores procurariam em vo pelas oito moas que sumiriam no ar, conio folhas ao vento.
- O que a diverte, Vina? - perguntou o marqus de repente, vendo-a sorrir.
- Estou rindo porque me sinto feliz.  maravilhoso estar aqui nesta linda casa, e ouvir falar sobre a ndia. Nunca vou me esquecer destes momentos!
- Voc fala como se isso no fosse se repetir. Porm tenho a sensao de que  o comeo de um livro, no o fim!
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Lavnia riu muito.
- Seria bom se fosse verdade. Mas, como no pas de fadas,  s tocarmos qualquer coisa com mos humanas para elas sumirem.
- Se est insinuando que  o que vai fazer, Vina, tomarei providncias para impedir que isso acontea.
- De que jeito? Tal como num pas de fadas, POSSO sair voando num tapete mgico, ou usar minhas prprias  asas.
- E eu posso, como num pas de fadas - retorquiu o marqus -, convocar o gnio da garrafa e fazer com que ele a traga de volta para mim, em seu tapete ou no dorso 
de um delfim.
Lavnia bateu palmas de satisfao.
- Sabe que Apoio fez isso? s vezes me pergunto se os meninos leram as mesmas histrias que eu li em criana. Pa r mim, sempre foram reais.
- Para mim tambm - confessou o marqus. - Cor tudo, nunca encontrei algum que pensasse como eu.
O marqus considerava sua conversa com Lavnia fase nante, e nada rotineira.
Jamais poderia ter esperado encontrar mulher assim, num grupo de coristas.
Imaginara, como se passara em outras ocasies, que seus amigos e as coristas beberiam alm da conta, e que, quela hora, j estariam rindo e falando bobagem.
E o barulho da sala seria bem diferente, ento.
Ele olhou para a outra extremidade da mesa.
Teve a impresso de que todos os seus amigos mostravam se intrigados com as lindas moas que lhes faziam compa nhia, falando com seriedade e muito sbrias.
Nada de algazarra ou inconvenincias.
O marqus convencia-se de que Rupert no exagerara ao dizer que as moas convidadas seriam no apenas bonitas, mas diferentes.
E ele acertara!
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gm sua experincia com mulheres de teatro, o marqus conclua que as meninas sentadas  volta da mesa no tinham nada em comum com as que ele tivera contato antes.
Mas o que as fazia diferentes?
"George Edwardes deve ter posto pessoas competentes  procura de mulheres especiais para seu novo show. Preciso lembrar-lhe de lhe perguntar isso", o marqus disse 
a si mesmo.
Comeou a conversar com Lavnia de novo, para que ela no fosse monopolizada pelo cavalheiro sentado do outro lado.
Por estar Millicent ocupando o lugar de honra, coube a ela dizer ao marqus, terminando o jantar:
- Acho, milorde, que as senhoras devem deixar os cavalheiros  vontade, saboreando o vinho do Porto.
"Mais uma vez uma atitude fora do comum, numa refeio com vedetes", pensou o marqus.
Era o momento em que cada uma delas j estaria grudada ao homem com quem flertar durante o jantar. E no o deixaria por nada.
As coristas quebravam sempre a regra social, ficando na sala enquanto o vinho do Porto era servido.
Mas o marqus no discutiu.
- Sim - replicou ele. - Se for o que desejam... Millicent levantou-se e as outras moas a imitaram. Como um bando de pssaros, com suas saias esvoaantes, elas se 
retiraram. Fechada a porta, o marqus comentou com Rupert:
- Parabns, amigo, pelo grupo de mulheres bonitas que nos trouxe.
- Alegro-me por no t-lo decepcionado - respondeu upert.
Os homens aproximaram-se do marqus.
- Achei-as encantadoras - um deles, que se sentara ao lado de Katherine, observou. - Foi uma conversa interessante, como h muito tempo no tivera. E nunca esperei 
que isso se desse com uma corista.
Dois outros rapazes disseram a mesma coisa.
Embora o marqus no desse sua opinio, concordava que Vina era uma moa bastante especial.
No podia entender o porqu da preocupao dela con o Tibete.
"Pode ter sido uma conversa para me impressionar", disse ele a si mesmo. "Vedete nenhuma se interessaria por pas to obscuro que mantm as fronteiras fechadas com 
o ocidente, como acontece com o Tibete! "
Os hspedes ainda falavam sobre as moas quando o marqus sugeriu, mais cedo que de hbito, que se juntassem a elas.
- Como estamos todos muito cansados esta noite, no programei nada de especial, mas espero que as meninas te nham alguma ideia sobre o que fazer.
Os homens se entreolharam maliciosamente, imaginando qual seria o prximo entretenimento. Afinal, era o que se esperava de um grupo daquela categoria.
Chegando na sala, o marqus ouviu o som de msica tocada ao piano.
A pianista, Betty, alm de bem dotada no piano era moa lindssima.
Ela executava um estudo de Chopin.
Assim que os homens entraram na sala, passou a tocar uma valsa de Johann Strauss, melodia alegre de ritmo cadenciado que manteve Viena danando por dcadas.
Duas moas reclinadas no sof levantaram-se para receber os cavalheiros.
E o rapaz que se sentara ao lado de Betty no jantar foi para perto dela no piano. Acomodou-se numa banqueta ficou conversando enquanto a moa tocava.
O homem que jantara  direita de Milly encaminhou-se ao encontro dela.
E o marqus viu-se face a face com Lavnia.
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- O que voc gostaria de fazer agora? - interrogou ele. Lavnia fitou-o intrigada, e o marqus acrescentou: - Adivinho a resposta. Quer ver mais um de meus tesouros.
- Adoraria - confirmou Lavnia. - Mas no desejo incomod-lo.
- Nunca permito que algum me incomode. Quando me ofereo a fazer qualquer coisa,  por livre e espontnea vontade.
Ele conduziu-a  outra extremidade da sala. Ficou surpreendido quando Lavnia reconheceu uma grande quantidade de telas.
"Talvez ela esteja lendo os nomes dos pintores", admitiu ele. "Quer me impressionar. "
Da sala foram para uma outra saleta.
E l havia um Rembrandt e um Rubens que extasiaram Lavnia.
Numa prateleira estavam expostas muitas caixinhas de rap, incluindo algumas executadas por Faberg.
O marqus explicou que as trouxera da Rssia, quando de sua viagem quele pas.
- Ento, esteve na Rssia! - exclamou Lavnia. - Que homem de sorte!
- Fiquei em So Petersburgo, hospedado com o czar. Mas no gostei muito de l.
- Por qu?
-  um pas de enormes contrastes, de grande pobreza e esbanjamento desnecessrios.
- Sei que os escravos so tratados com crueldade - observou Lavnia. - Li sobre o assunto e custei a crer que pessoas consideradas civilizadas pudessem se portar 
de maneira to desumana.
Os dois falaram algum tempo sobre a Rssia, sempre uma conversa sria. O marqus surpreendia-se com o modo co"fto Lavnia abordava todos os temas.
Inesperadamente, quase como se quisesse test-la, ele deciar ou:
- vou lhe mostrar uma coisa. Est em meu escritrio p0, que ainda no me decidi onde coloc-la.
Foram ento para o escritrio, a mesma sala onde ( marqus as recebera na chegada. Ele tirou uma caixa da ga veta e levou-a para Lavnia ver. Ela aquecia-se perto 
d; lareira.
A caixa era rstica, de um tipo de madeira no existentf na Inglaterra.
O marqus abriu-a e tirou de dentro um objeto envolto em papel.
- Ainda no tive tempo de examinar bem isto aqui ds de que voltei da ndia - disse ele. - Porm, fui informado de que  uma pea rara, e gostaria de ouvir sua opinio, 
Vina
Assim que terminou de falar, ele mesmo estranhou sua atitude. Afinal de contas, Lavnia, uma quase desconhecida era a primeira pessoa a quem ele mostrava o estranho 
objeto. Por que pedir a opinio de uma simples vedete?
O marqus desembrulhou o pacote vagarosamente.
Lavnia aguardava com certa ansiedade.
Dentro havia uma imagem de cor verde-escura, nada mais nada menos que uma grande esmeralda em forma de Buda
Lavnia examinava em suas mos a pea, mal podendo acre ditar no que via. E o marqus observou:
- Informaram-me que  originria do Tibete. Lavnia reconheceu logo o valor daquele objeto, de certa
forma, miraculoso. No conseguia desviar os olhos da face do Buda.
Quando o marqus falou, ela teve a impresso de que a voz dele vinha de muito longe, to absorta estava.
- Que acha que devo fazer com isso? - perguntou ele Aps segundos, Lavnia balbuciou:
- Vossa Senhoria precisa saber... que isto  uma pea sagrada!  coisa preciosa... maravilhosa... e deve ter pertenci do a algum mosteiro.
- Foi o que pensei - confirmou o marqus. nfe
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-  pea muito, muito antiga - prosseguiu Lavnia. posso perceber que... milhares de preces e atos de f foram dirigidos a ela. Sinto as vibraes... e vou ajoelhar-me 
perante essa imagem preciosa.
Lavnia falava devagar, como num sonho. Levantando-se, ela perguntou:
- Como pde Vossa Senhoria obter coisa to maravilhosa?
- Eu me encontrava no norte da ndia - explicou o marqus. - Um homem aproximou-se de mim e disse que possua algo valioso para vender. Eu estava de partida para 
Calcut, com pressa, por isso recusei comprar o que quer que fosse. Mas o homem insistia. Finalmente, ele tirou o objeto de uma caixa e desembrulhou-o. E a est 
ele! Comprei-o com certa relutncia!
- Como pde hesitar em compr-lo aps t-lo visto? Lavnia ps o Buda numa mesa ao lado da lareira. Havia
uma arandela bem acima que iluminou a esmeralda fazendo-a brilhar intensamente.
O marqus ento notou que Lavnia olhava para a imagem, de mos postas, em atitude de orao.
Era a milenar posio de prece dos indianos, e tambm o gesto de saudao a um indivduo de casta superior.
Fitando Lavnia, o marqus concluiu que a moa no fingia nem posava para ele. Agia com sinceridade.
com os olhos postos no Buda, orava.
O marqus continuou observando-a. Aps segundos, ela murmurou:
- Vossa Senhoria... precisa... devolver essa imagem... aos kgtimos donos.
- Que quer dizer com isso, Vina?
- Os donos dela... a procuram. Garanto que foi roubada e, para os proprietrios, significa uma terrvel e irreparvel perda!
- Como pode acreditar em tal coisa, Vina?
- Apenas sinto... Sei... como se algum estivesse falando comigo...
Ela afastou-se da mesa e sentou-se numa poltrona no e t. tro lado da lareira.
O que ela sentira deixara-a exausta.
Ainda com os olhos no Buda, Lavnia disse:
- Estou certa... de que essa imagem veio de um dos gran ds mosteiros do Tibete. E deve ser... a relquia mais precio s que possuem.
- Por que pensa assim? - perguntou o marqus.
Ele tambm j havia imaginado ser essa a origem da rei! quia, embora no soubesse por que Lavnia chegara  ma concluso.
- Vossa Senhoria deve saber que no Tibete h um pequ no altar em cada casa, diante do qual a famlia ora, pela m. nh e  noite.
- Ouvi falar - confirmou o marqus. - Mas continuei
- Li uma histria, que acredito ser bastante reveladora, acerca de uma mulher tibetana que pediu ao filho que lhe trouxesse de Lhasa uma relquia sagrada.
- No difcil de se encontrar - interrompeu-a o marqus,
- Ele prometeu  me que o faria, mas esqueceu-se. No ano seguinte o rapaz foi outra vez a Lhasa e jurou  me que se lembraria do pedido. Mas esqueceu-se de novo. 
No terceiro ano, lembrou-se, porm no instante de voltar  casa
- E sem a relquia, com certeza.
O marqus falava com displicncia, tentando no levar a srio a crena de Lavnia. E ela prosseguiu com sua narrao:
- O rapaz pegou a queixada de um burro e tirou um do? dentes. Deu-o  me dizendo que era uma relquia sagrada
- E a me acreditou?
- Sim. Colocou-a no altar e rezava diante da suposta relquia. Vizinhos iam  casa dela tambm para fazer oraes Aps curto tempo, uma luz azulada comeou a irradiar 
do dente.
Lavnia explicava tudo com muita simplicidade, sempre fitando a imagem, e no o marqus.
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Ele perguntou:
-  o que voc est vendo agora?
-  o que estou... sentindo - replicou Lavnia. - Uma vibrao forte, que me leva a concluir que este Buda faz milagres.
A sinceridade de Lavnia era to impressionante que o marqus teve a sensao de estar num templo sagrado.
Achando, porm, que a conversa o desviava de sua finalidade para aquela noite, pegou o Buda, enrolou-o no papel e o ps dentro da caixa.
Assim que baixou a tampa, Lavnia disse:
- Acho... que Vossa Senhoria... est errado!
- Como?
- Est errado em encerrar o Buda dentro dessa caixa. Deixe-o  vista, talvez em seu quarto, para que ele possa proteg-lo... e para que Vossa Senhoria possa... rezar 
diante da imagem.
com determinao, o marqus ps a caixa na gaveta e fechou-a, irritado.
- Voc est me fazendo acreditar que possuo algo assustador - protestou ele. - No sei se aceito ou no sua histria.
- Por que no aceitaria? O que lhe relatei  a pura verdade.
O marqus no queria mais conversar sobre o Buda. Preferia conhecer fatos da vida dela.
Lavnia levantou-se. Estava linda, sedutora, com o vestido que lhe realava a cintura fina, cuja saia caa em babados at o cho.
Mas, talvez devido ao assunto da palestra, ela possua tambm um ar espiritual a par da beleza fsica.
O marqus no ignorava que, com qualquer outra corista Que permanecesse sozinho no escritrio, sua atitude seria bem diferente. com certeza estaria com a moa nos 
braos, beijando-a.
Os olhos de Lavnia continuavam presos  gaveta onde fora
guardada a imagem.
"Ela no pensa em mim", refletia o marqus, um tanto quanto revoltado.
Encaminhou-se para a porta.
- Vamos nos unir ao grupo - sugeriu ele. Lavnia levou algum tempo a responder, custou para voltar  realidade.
Apenas seguiu o marqus e, saindo do escritrio, murmurou:
- Est ficando... tarde, e sinto-me cansada. Posso ir. para a cama?
O marqus percebeu que, aps a espcie de transe pelo qual passara, Lavnia no teria vontade de ficar no meio de muita gente. Por isso concordou:
- V descansar, Vina. Acho que todos ns tivemos um dia longo hoje.
Lavnia hesitou antes de pedir:
- posso andar a cavalo amanh? E, se for possvel, a que horas?
- Gosta de cavalgar, Vina? - O marqus estava espantado com mais essa caracterstica de sua companheira.
- Sim, muito. Ouvi falar de seus magnficos animais, e adoraria poder montar um deles.
- Tem certeza de que pode?
Lavnia riu muito.
- Certeza absoluta - replicou. - Ando a cavalo desde que comecei a engatinhar. Por favor, permita que eu monte um animal que seja bom saltador de obstculos.
O marqus fitava-a pasmado.
- Agora voc me assusta, Vina. Vai me dizer que suas amigas tambm cavalgam?
- To bem como os patos nadam. - Lavnia ria. Todas ns trouxemos trajes de montaria e ficaramos desapontadas se Vossa Senhoria no nos permitisse usar seus cavalos.
- Jamais faria tal coisa - garantiu-lhe o marqus. $urpreendo-me apenas, porque no supus que esse seria o desejo de vocs.
- Fale com Kithy, e ela poder lhe explicar melhor que eu sobre nosso anseio em usar seus animais.
- Ento, naturalmente,  o que todas vocs podem fazer amanh. Vo se levantar cedo?
- Mas claro!
O marqus estava cada vez mais atnito. No conhecia pessoas do mundo teatral que se levantavam cedo, que no ficavam na cama at meio-dia.
- A que horas Vossa Senhoria geralmente toma o caf da manh? - indagou Lavnia.
- s oito e meia. Porm duvido que amanh algum se levante antes das nove.
Lavnia considerou nove horas muito tarde, mas no fez comentrios.
Quando os dois atingiram o sop da escada, ela estendeu a mo ao marqus, dizendo:
- Muito obrigada pelas horas agradveis que passei aqui. E muitssimo obrigada, principalmente, por ter me mostrado seu precioso tesouro do Tibete.
Ela suspirou antes de acrescentar:
- vou dormir pensando nele, e talvez sonhe com o local de onde foi roubado, para que o senhor possa devolv-lo.
- Por que tem tanta certeza, Vina, de que o devolverei? Paguei muito dinheiro por aquela pea e, como voc, acho-a interessante e diferente de qualquer outra que 
possuo.
- Mas no pode... nunca ser sua na verdade - gaguejou Lavnia.
Ela subiu as escadas e o marqus ficou observando-a at que desaparecesse.
Lavnia no olhou para trs, como ele imaginara.
Pela primeira vez uma mulher o deixava sem virar a cabea para um ltimo sorriso, para um convite E tratando-se de uma corista, o fato era estarrecedor. ele foi 
para o salo, junto dos amigos Mas no conseguiu afastar seus pensamentos de Lavnia
CAPTULO V
 Lavnia desceu para o caf da manh s oito e meia em ponto.
A nica pessoa que l se achava era o marqus. Ele ergueu-se para cumpriment-la:
- bom dia! Voc  mais pontual do que imaginei.
- Geralmente levanto-me mais cedo que isso - respondeu ela, esquecendo-se de mentir.
Uma artista que trabalha at tarde da noite no teatro nunca pode levantar-se cedo, dia aps dia.
As entradas estavam sobre o bufe, em travessas de prata.
Lavnia lembrou-se de sua me ter dito que nas casas ricas os empregados nunca serviam a mesa na hora do desjejum: " difcil escolher um prato entre tantos", ela 
costumava dizer.
- Est com fome? - perguntou-lhe o marqus.
Ela sabia que as vedetes preocupavam-se muito em no exagerar na comida.
George Edwardes insistia que no tivessem mais que cinquenta centmetros de cintura.
Por isso a maior parte delas apenas provava da deliciosa comida dos Romano's.
E o marqus no ignorava que, mesmo em suas prprias casas, elas comiam frugalmente.
No por economia, pois eram bem pagas, mas para cuidar do fsico.
- S em olhar para tudo isso - replicou Lavnia -, sei que vou comer muito.
Ela serviu-se de trs pratos enquanto falava, e foi para a
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mesa sorrindo.
Alguns minutos mais tarde chegaram Rupert e dois outrc homens.
Mas apenas depois das nove Katherine apareceu.
- Voc foi dormir cedo ontem - disse ela a Lavnia,  guisa de desculpa pela demora. - Eu subi muito mais tardi;  porm, vendo este lindo dia, arrependo-me de no 
me ter levantado mais cedo.
O marqus sorriu e comentou:
- Vocs usualmente acordam muito mais tarde; o teatro no termina antes das onze horas. Depois disso, ainda Vem cear com seus admiradores!
Katherine percebeu que falara demais; e procurou emendar
- Mas  que no  sempre que temos a chance de cavalgar montarias to espetaculares. Assim sendo, no faz diferena ficarmos na cama at tarde de manh.
Lavnia achou que a amiga corrigira sua gafe com muita habilidade.
Mas ficou contente por no ter sido ela a faltosa.
As outras meninas foram chegando uma a uma, e j eram nove e meia quando todos terminaram de comer.
O marqus anunciou que os cavalos esperavam por elas.
Katherine e Lavnia desceram as escadas correndo.
Quando chegou ao ptio, ela viu logo a razo da pressa de Katherine.
- Eu quero este cavalo! - declarou ela, acariciando um enorme garanho de sangue rabe.
Lavnia pegou outro, de cor castanha, que o cavalario estava tendo dificuldade em segurar.
O marqus esperou cortesmente que todas as moas sassem da sala.
Quando chegou ao ptio, Katherine e Lavnia j estavam montadas. Ele foi para perto de Lavnia que controlava sua turbulenta montaria.
- Este cavalo  rebelde demais para voc - disse ele. Deixe-o para Rupert.
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- Agora  tarde demais - respondeu Lavnia sorrindo. " j fiz minha escolha! vou ficar muito desapontada se tiver de ceder Rufus a outra pessoa!
Ela soubera o nome do cavalo atravs do cavalario.
Inclinou-se para afagar o pescoo do animal e falava com  ele num tom de voz suave, como o pai lhe ensinara.
O marqus observava-a.
A, achando intil insistir, montou seu prprio cavalo, tam)m rabe.
As outras moas foram ajudadas a montar e todo o grupo partiu.
Katherine deliberadamente galopava junto dos bons cavaleiros. Fazia questo de impressionar o marqus.
Assemelhava-se a uma verdadeira amazona, linda, indo para a guerra.
O marqus conduziu todo o grupo  pista de corrida, num terreno plano.
Mas antes tiveram de percorrer quase um quilmetro de distncia, o que deu a Lavnia a oportunidade de usufruir do prazer de cavalgar Rufus, excelente animal, um 
dos melhores que j montara.
O estbulo do conde de Kenwick no deixava de ser muito bom, mas, como Rupert dissera, o do marqus era bem superior.
Assim que chegaram  pista de corrida, o marqus observou;
- No quero desapont-las, meninas, porm os obstculos foram preparados para uma competio que ter lugar aqui, em duas semanas. So muito altos; tentei faz-los 
dificultosos pois todos os cavaleiros so homens!
Lavnia notou que os obstculos no eram to altos assim.
- Contudo - prosseguiu o marqus -, h algumas cercas menos altas um pouco adiante. Sugiro que me sigam e eu lhes mostrarei onde podem saltar sem perigo.
Enquanto ele falava, Lavnia percebeu que Katherine examinava os obstculos da pista.
O marqus ia se pr em movimento quando ela tocou sua montaria com o chicote e tomou a direo do primeiro obstculo.
Houve uma exclamao da parte de vrios homens. O marqus olhava para ela, com ar de reprovao. Katherine atingiu o obstculo e saltou-o com a facilidade de uma 
amazona excepcional.
- Bravo! - gritou George, seu parceiro de mesa. George era o conde de Morne, filho do marqus de Mornecliff.
- Ela teve sorte - comentou o marqus. - Venham comigo, vocs outras! No quero nenhuma de minhas hspedes com o pescoo quebrado!
Foi ento que Lavnia percebeu que o marqus agia de maneira muito ditatorial.
Enfim, qualquer bom cavaleiro poderia decidir se era ou no capaz de saltar.
Ela ento tocou Rufus muito levemente com o chicote e o cavalo respondeu prontamente.
Tinha j quase alcanado o obstculo quando o marqus se deu conta do que ela iria fazer.
- Pare, Vina! - gritou. - Pare imediatamente! Mas era tarde demais.
Rufus saltou o obstculo, no to bem como a montaria de Katherine, mas ainda bastante bem.
O cavalo fez uma aterrissagem perfeita do outro lado.
Katherine se ocupava em saltar o segundo obstculo.
Lavnia ia segui-la. Porm o marqus pulou o obstculo que ela acabara de saltar, num estilo magnfico, e ficou bem perto de Rufus.
- Voc no vai imitar Kathy! - gritou ele.
- Por que no?
Lavnia estava um pouco ofegante devido ao salto, e arrumava o chapu.
Seu cabelo fora to bem preso que dava a impresso de que ela no realizara mais que um ligeiro trote.
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- Por que no? - repetiu Lavnia.
- Porque eu no quero - replicou o marqus. - J disse que esses obstculos so altos demais. Eu quase tive um enfarte; imaginei que voc no conseguiria chegar 
do outro lado sem cair.
- Considero isso um insulto! - replicou Lavnia. - Ando a cavalo desde que comecei a engatinhar, e estes obstculos seriam altos demais para mim s se eu estivesse 
montando um animal de qualidade inferior-, no Rufus.
Ela sorria para o marqus, porm ele insistiu com firmeza:
- Como seu anfitrio e dono do cavalo exijo que me obedea.
Eles se encararam, e Lavnia achou que uma batalha iria ser travada. Mas, por no querer brigar, resolveu ceder.
- Muito bem, milorde, vou obedec-lo, ainda que com relutncia.
- Ordeno que me obedea, e talvez eu a recompense com alguma coisa que lhe agrade mais e que no seja to perigosa.
Lavnia no deu resposta. Revoltava-a faz-lo pensar que aceitaria o presente. Preferiria sumir a ter de receber o tal presente.
Ela limitou-se a cavalgar calmamente, acariciando Rufus que, no importando o que o marqus pudesse pensar, a teria levado s e salva para o outro lado dos obstculos.
Todos cavalgaram at a hora do almoo, e voltaram para casa.
As meninas receberam elogios pela maneira como montavam.
- No tinha ideia de que vedetes conseguissem fazer qualquer outra coisa violenta alm de danar - um dos rapazes comentou.
- Ento espero que tenha mudado de opinio - observou Elizabeth. - E, no futuro, dem-nos mais valor do que nos deram no passado!
- Isso  impossvel! - o cavalheiro ao lado dela protestou. - Vocs todas so to incrivelmente lindas que no precisam de nada mais alm de permitir que apreciemos 
sua beleza.
O homem com quem falava aproximou-se dela.
- vou lhe dizer o que desejo, quando estivermos a ss Betty - disse.
Havia uma expresso na voz dele bem diferente da de segundos atrs. 
Lavnia percebeu que Elizabeth encarava-o de maneira provocante ao dizer:
- Penso que isso v ser difcil. Nosso anfitrio preparou um programa interessante para ns esta noite.
Os dois afastaram-se, mas Lavnia notou que o homem continuava discutindo. Ela pensou que Elizabeth, como as de- mais moas, estava sendo muito esperta.
Todas tentavam seduzir os homens, conforme Katherine pretendera. Mas ao mesmo tempo criavam dificuldade a qual- quer contato mais ntimo.
Passara pela cabea de Lavnia, quando convidada por Katherine, que vedetes eram mais ou menos o mesmo que atri- zes, apesar de pessoas respeitveis da sociedade 
no as receberem em suas casas. Mas ela no sabia exatamente a razo de tal procedimento.
Viu logo, contudo, que os homens ali reunidos esforavam-se por se tornarem ntimos. Ora pondo um brao em volta da cintura delas, ora tentando beij-las. E isso 
assustou Lavnia.
Quis perguntar a Katherine o que deveria fazer em tal caso, mas ficou acanhada.
Enfim, resolveu que uma coisa a evitar seria permanecer sozinha com qualquer dos amigos do marqus.
No obstante, enquanto o marqus lhe mostrara seus tesouros, ela esquecera-se de que era ele um homem e de que estavam a ss no escritrio.
E no houve nada de censurvel no procedimento dele. Concluiu que talvez ela no o atrasse, pois ouvira muito
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sobre a obsesso do marqus por vedetes.
Quando voltavam para a manso, Lavnia observara o garbo dele em sua montaria, parecia fazer parte do animal.
Comeou a pensar se as coristas que ele geralmente convidava para cear permitiam ser beijadas.
"Talvez at se apaixonem por ele. O marqus  um homem assustador, mas atraente, e tem uma personalidade difcil de ser ignorada", refletia ela. "Como pde Katherine 
descrev-lo como um emproado, cansativo, convencido? Ele d uma ideia errada de si mesmo ao mundo. "
Nesse instante o marqus diminuiu a marcha de seu cavalo e emparelhou com Lavnia.
- Est muito sria, Vina! - disse ele. - Em que pensa?
- Em Vossa Senhoria - replicou Lavnia com espontaneidade.
- Sinto-me envaidecido com isso! E que pensava sobre mim, Vina?
Hesitante, ela replicou:
- Pensava... que Vossa Senhoria tem uma personalidade forte... vibrante... mas que d uma impresso errnea ao mundo.
O marqus fitou-a espantado.
- Que quer dizer com isso, Vina? Supondo que dissera algo rude, desculpou-se:
- Sinto muito, falei o que me veio  cabea. No devia ter agido assim, milorde.
- Ao contrrio, estou interessado em saber mais. Porm estamos chegando, e falaremos sobre esse assunto depois.
De fato, estavam no ptio em frente  manso.
Lacaios aguardavam-nos para segurar os animais.
Quando Lavnia se preparava para escorregar da sela, o marqus, j a seu lado, ergueu-a e colocou-a no cho.
Ela era muito leve, e teve a impresso de que o marqus demorara um pouco mais do que o necessrio para faz-la apear. Estava bem consciente da proximidade e fora 
dele, e uma sensao estranha a perturbava.
- Penso no ser necessrio lhe dizer que monta muito bem- declarou o marqus, ainda com as mos na cintura de Lavnia.
Ela corou ao dizer:
- Muito... obrigada.
Nervosa, saiu correndo e foi para o quarto a fim de trocar de roupa.
Surpreendeu-se ao dar com a governanta l.
- bom dia! - falou Lavnia.
- bom dia, miss! Suas roupas foram levadas para o "quarto da rainha", que  onde a senhorita vai dormir esta noite.
Ela falava com determinao. Lavnia indagou, cheia de curiosidade:
- Por que devo mudar de quarto?
Houve um momento de pausa antes de a governanta responder:
- Esta lareira est enfumaando um pouco, e Sua Senhoria ordenou que se fechasse o quarto at que venha o limpador de chamins.
- Oh, entendo! Mas que trabalho para a senhora! Talvez haja algum ninho abandonado bloqueando a sada da fumaa, como aconteceu certa vez em minha casa.
A governanta no se mostrou interessada em continuar a conversa. Apenas conduziu Lavnia ao novo aposento.
Ficava bem distante do primeiro. Lavnia achou esquisito no haver outro cmodo mais prximo ao dela.
Porm, o quarto para onde foi levada era ainda mais luxuoso que o anterior.
O enorme dossel, sustentado por colunas douradas, tinha cortinas de petit-point que pendiam de todos os lados.
Tanto os quadros como os mveis eram de fino gosto.
Lavnia imaginou logo ser aquele um dos quartos de hspedes mais elegantes da casa.
A governanta retirou-se imediatamente, e uma criada comeou a ajudar Lavnia a se trocar.
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- Que quarto lindo! - observou Lavnia.
- Tambm acho, miss! Mas a senhorita precisa ver o de Sua Senhoria.
- Deve ser ainda mais suntuoso - declarou.
- E . Na cama, enorme, cinco pessoas podem dormir folgadamente, miss, e a pequena coroa acima do dossel tem o tamanho de uma bola de futebol.
Lavnia riu da comparao, mas pensou que gostaria muito de ver o quarto.
Contudo, jamais pediria isso ao marqus.
Sua penteadeira tinha um espelho oval com cupidos entalhados na moldura, e um babado  volta toda, de renda valenciana.
As janelas davam para outra ala da manso.
Lavnia podia ver um canteiro de rosas, gramados muito verdes e, mais alm, um lago.
"Nunca terei tempo de apreciar tudo isso de perto", pensou ela com um suspiro.
A empregada ajudou-a a pr um elegante vestido azul que Katherine escolhera para ela usar  tarde.
Lavnia nem teria se lembrado de colocar jias se a criada no sugerisse:
- Ponha o colar de prolas, miss. Vai ficar lindo em seu pescoo.
Lavnia considerava-se enfeitada demais para a tarde, porm fez o que a empregada sugeriu.
No ltimo instante lembrou-se de retocar a maquilagem.
Aps o passeio a cavalo, seus lbios estavam quase da cor natural e os clios necessitavam de uma pintura extra.
Quando ela chegou no topo da escada, encontrou-se com Katherine que a examinou atentamente.
- Voc est bem, Lavnia. Foi esperta em se lembrar da maquilagem. Agora mesmo avisei Suzana para no descer sem pintar o rosto.
Falando em Suzana, Suzana apareceu.
- Desculpe ter me esquecido da pintura, Katherine - disse ela. - Foi bobagem minha, mas  que Rupert pediu para falar comigo logo, logo.
Ela desceu as escadas correndo.
Katherine preocupou-se:
- Ser que alguma coisa est saindo errada? - interrogou ela.
- No, acho que no - replicou Lavnia. - Se fosse isso, Rupert conversaria com voc em primeiro lugar.
- Espero que tenha razo, Lavnia.
Do hall elas no foram conduzidas ao escritrio, mas a outra sala que Lavnia no conhecia.
Era to linda como as demais, apenas com maior quantidade de quadros na parede e quase todos eles de autores franceses.
Lavnia sempre tivera desejo de ver um verdadeiro Fragonard ou um Boucher. Apreciava as telas quando o marqus aproximou-se.
- Achei que voc gostaria desta sala - comentou ele.
-  simples mas maravilhosa! - exclamou Lavnia, sem contudo tirar os olhos dos quadros enquanto falava.
O marqus estranhou. Estava acostumado a mulheres que sempre o fitavam, ele estando presente.
O almoo, alm de delicioso, foi agradvel, com todo o mundo falando ou rindo.
Cada um tinha um ponto de vista diferente sobre os vrios assuntos em discusso.
Katherine punha fogo nas controvrsias, e mantinha a discusso animada.
"Como  inteligente essa Katherine", pensou Lavnia. "O tipo da esposa perfeita para o marqus. "
E foi com dificuldade que ela se segurou para no sugerir essa ideia a ele.
Depois do almoo o grupo planejava sair a cavalo de novo, mas comeou a chover.
O marqus levou os convidados a um salo onde havia todos os tipos de jogos, incluindo uma mesa de bilhar e uma
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de pingue-pongue.
Tambm se podia l jogar gamo, xadrez, dardo e uma infinidade de jogos oriundos da Frana.
Todos riram muito, e Lavnia achou que seria impossvel divertir-se mais do que aquilo.
As horas correram rapidamente at o instante de elas irem se preparar para o jantar.
Lavnia tomou um banho e colocou outro vestido. Era todo bordado com lantejoulas pequenas que brilhavam a cada movimento que fazia.
Pedrarias cintilavam nos babados das anquinhas e em volta do decote.
Ela estava na dvida se deveria ou no usar o colar de diamantes e turquesas pela segunda vez.
Algum bateu  porta.
Como na noite anterior, um lacaio trazia flores naturais numa bandeja.
- Esqueci-me das flores! - exclamou Lavnia. - O que devo escolher? - perguntou ela  criada.
- Estes lrios pequenos, miss. Ficam bem na senhorita.
- Ento, vou us-los.
A empregada colocou alguns nos cabelos de Lavnia. Havia tambm na bandeja um buque de lrios, prprio para uma lapela de homem.
- Voc acha que posso pegar isto tambm? - indagou Lavnia  empregada. - Usaria no pescoo em vez de um colar.
- Boa ideia, miss!
O pequeno buque foi preso a uma fita de veludo e amarrada ao pescoo dela. Ficou lindo e a fez mais jovem que nunca. Lavnia desceu.
- Voc parece ter sado das nuvens - um dos cavalheiros lhe disse assim que ela chegou ao hall.
- Esta noite j designei os pares para a mesa. - declarou o marqus. - E voc  o meu, Lavnia.
Ele sorriu e acrescentou:
- Espero que esteja satisfeita com a escolha!
- Claro que estou.
Todos foram para a sala de jantar. Cada homem conduzindo seu par.
E havia um presente ao lado de cada prato.
O de Lavnia era um estojo para p, com um pequeno espelho na tampa.
- Obrigada, muito obrigada mesmo! - agradeceu ela ao marqus. -  o presente mais lindo que j recebi.
- Espero que voc tenha chance de me dizer isso muitas vezes no futuro.
Lavnia, de incio, no entendeu bem o sentido da frase. Quando caiu em si, enrubesceu e olhou para o outro lado. De sbito, o marqus indagou, com voz severa:
- Quem deu a voc o colar que usou ontem  noite? Por no saber que resposta dar, Lavnia fingiu no ter
ouvido.
Virou-se para ver o que Dris havia ganhado. E rezou para que o marqus no repetisse a pergunta.
Depois do jantar, foram todos para o outro salo, onde a orquestra executava msicas de dana.
Lavnia viu-se nos braos do marqus quase a noite toda.
Rupert tirou-a uma vez para danar e sussurrou, enquanto giravam pelo salo:
- Katherine decidiu que, como alguns dos cavalheiros vo voltar para Londres amanh, teremos de sair daqui muito cedo, e em segredo. Uma criada chamar voc a um 
quarto para as seis, e eu providenciarei as carruagens para as seis e meia.
- Estarei pronta - declarou Lavnia.
Ela achou que Katherine estava certa. Seria imprudente que os cavalheiros fossem junto com elas para Londres.
com certeza achariam estranho que vedetes morassem em casas elegantes, perto de Grosvenor Square.
At aquele instante, tudo correra to bem que seria uma
pena estragar a brincadeira no final.
Houve um cotillon com distribuio de presentes s mulheres e aos homens.
Enfim, era quase uma hora da madrugada quando as pessoas comearam a subir para o quarto.
Lavnia estava se sentindo cansada em consequncia do passeio da manh. Fora extenuante.
Tambm, no dormira bem na noite anterior, preocupada com a representao de seu papel de corista.
Trancou a porta do quarto logo que a criada saiu, conforme Katherine recomendara.
Rezou e entrou embaixo das cobertas.
Havia luz eltrica em quase toda a casa, mas o marqus no quisera estragar os dormitrios com coisa to moderna e pouco romntica.
A nica luz do quarto de Lavnia provinha de uma vela num castial de prata, ao lado da cama.
Antes de soprar a vela, ela deu mais uma olhada pelo lindo quarto.
A notou que o espelho do outro lado da lareira movia-se. Constatou ento que estava pregado numa porta, e no, como pensara, na parede.
Arregalou os olhos quando o marqus entrou no quarto.
Ele usava um longo robe com alamares dourados, do pescoo  barra.
- O que... o que... aconteceu? Que h de errado? - gaguejou ela.
- No h nada de errado - replicou o marqus indo para perto da cama -, exceto que ainda no lhe disse boa-noite.
- Oh... mas Vossa Senhoria... se despediu de mim l no hall, quando lhe agradeci pela agradvel noite que nos proporcionou, lembra-se?
- Mas no seria possvel lhe dizer boa noite como eu queria, no meio de tanta gente.
Ele sentou-se na beirada da cama, fitando Lavnia bem nos olhos.
"ai
- Sinto muito - balbuciou ela -, mas no  certo o senhor estar aqui. Precisa ir embora j. Tranquei a minha porta...
- Como na noite passada?
- Soube disso?
- Meus amigos disseram, com grande espanto, que todas as moas haviam trancado suas portas, e eu conclu qui voc no seria uma exceo.
- No... claro que no... mas no percebi que havia outra porta neste quarto.
Como o marqus no respondesse, ela acrescentou:
- Por favor, v embora, o senhor no deveria estar aqui, e minha me ficaria chocada... se soubesse...
- Ouvi dizer que sua me tinha morrido, Vina.
- Ela morreu... mas meu pai est vivo... e ele ficaria muito zangado...
- Como nenhum dos dois est aqui conosco - admitiu o marqus com ligeiro tom de zombaria na voz -, no julgo necessrio nos preocuparmos com eles. Voc  linda, 
Vina, e me atrai.
Ele tomou-lhe a mo em ambas as suas. Lavnia sentiu mais uma vez aquela estranha sensao percorrer-lhe o corpo todo. Respirava ofegante e tremia.
- Tenho muito a lhe dizer - prosseguiu o marqus e voc precisa me ouvir.
- Por que temos de falar... sobre isso... agora? - indagou Lavnia.
- Porque voc vai embora amanh de manh, e quero lhe falar sobre meus planos.
Ele apertava os dedos dela, e aproximou-se mais.
- Primeiro - disse o marqus -, vou conversar com George Edwardes para garantir que ele lhe d um papel importante em A Garota, se isso  o que voc deseja. Depois, 
no permitirei que voc v a Manchester ou a qualquer outra cidade do interior. Ficar comigo em Londres, at a estreia do show.
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Ele sorriu e acrescentou:
- Encontrarei para voc uma casa atraente em Chelsea ou em St. John's Wood, onde preferir.
Lavnia fitava-o atnita. No entendia nada daquela conversa.
Era-lhe difcil concentrar-se devido  proximidade do marqus. Ele tinha o rosto quase colado ao seu.
- Prometo faz-la muito, muito feliz, Vina. Ter os mais lindos vestidos de Londres e, claro, as jias para acompanh-los.
- Eu... no entendo. O que Vossa Senhoria pretende? Por favor, v embora!
Ela tentava falar com severidade e fazer com que o marqus compreendesse a recusa.
Mas, em lugar disso, sua voz soava meiga e quase como
um sussurro.
- Voc est sendo cruel comigo - queixou-se o marqus, procurando beij-la.
Porm, antes que seus lbios pudessem atingir os dela, Lavnia virou a face.
Empurrou-o com toda fora para impedir que ele chegasse mais perto.
- Voc  to linda! - exclamou o marqus, abraando-a. - vou ensinar-lhe a me amar.
Foi ento que ela deu um grito como o de um animal indefeso, apanhado numa armadilha. Debatendo-se, gritava:
- V embora... deixe-me sozinha!
O marqus no esperava por tal reao. Levantou-se imediatamente e encarou-a com um suspiro.
- Que est dizendo, Vina? O que a perturba?
- Me perturba o que me sugeriu.  errado e pecaminoso
- murmurou ela. - Vossa Senhoria me assusta! Por favor, v embora. Estou com medo!
O marqus fitava-a, estarrecido.  Quando viu lgrimas nos olhos de Lavnia, concluiu que
ela estava de fato apavorada, e perguntou:
- Por que tanto medo, Vina? Como pode falar dessa maneira, a menos que tenha repulsa por mim?  isso?
Havia incredulidade no modo de o marqus falar. Mulher alguma jamais sentira averso por ele.
- No me toque... - ela soluava. -  claro que no posso concordar com o que me pede.  vergonhoso!
- Vergonhoso? Ento, responda-me francamente! Quem lhe deu o colar que usava ontem  noite, e as prolas que usou hoje?
Lavnia ia dizer que pertenciam a Katherine. Mas apenas gaguejou:
- Eu... emprestei-os... de uma das moas.
-  verdade? Jura por tudo que  sagrado que fala a verdade?
O marqus ergueu-lhe o queixo e a fez encar-lo.
- Diga-me mais uma coisa, Vina. E no minta! Porque, se estiver mentindo, descobrirei logo. Algum homem j fez amor com voc?
O marqus fitava-a com olhos penetrantes.
Lavnia no tinha pintura alguma no rosto, e parecia muito jovem e indefesa.
Mesmo assim, era a mulher mais linda que ele j vira.
Por segundos ela no alcanou bem o sentido da pergunta. Depois, aos poucos, foi analisando o significado da mesma e sussurrou:
- Como pode pensar... que eu faa... algo pecaminoso aos olhos de Deus?
O marqus levantou-se da cama.
- No entendo o que est acontecendo! - exclamou. Mas falaremos sobre isso amanh, quando voc estiver mais calma.
Lgrimas rolavam pelas faces de Lavnia. Mesmo assim, ainda conseguia olhar para ele com lbios trmulos.
- Vou-me embora como me pediu, Vina. Porm, amanh nos entenderemos. H muitas coisas que desejo saber
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antes de voc partir.
Lavnia enxugou as lgrimas com a mo e o marqus tomou a direo da porta por onde entrara.
Antes de sair, viu que Lavnia ainda chorava e escondia o rosto no travesseiro.
Ele quis voltar para consol-la, mas mudou de ideia. Retirou-se e fechou a porta.
Ela sabia que estava sozinha de novo, mas continuou chorando.
Tinha certeza de que jamais conseguiria convencer o marqus de sua situao e de sua inocncia.
CAPTULO VI
Lavnia acordou, achando que algum a chamava.
Estava escuro ainda, mas a sensao de que algum a chamava em algum lugar foi insistente.
Imaginou estar sonhando, e acomodou a cabea melhor no travesseiro.
Porm, o apelo continuava, forte, quase uma ordem.
Pde ver ento, num quadro diante de seus olhos, o Buda de esmeralda.
A imagem vibrava, tentando contar-lhe alguma coisa importante.
Lavnia procurou concentrar-se.
A, entendeu tudo. O Buda de esmeralda chamava o marqus.
Uma voz clara como se lhe dizia que a presena do marqus era imprescindvel em um certo local.
Ela acendeu duas velas.
Saiu da cama e apanhou um penhoar que estava sobre a cadeira. Um penhoar simples, bem diferente do que as vedetes usariam, feito por ela mesma, de l. Tinha uma 
gola com um babado de renda.
Vestiu-o e abotoou-o na frente.
Depois, sem pensar em calar os chinelos, abriu a porta que comunicava com os aposentos do marqus.
A primeira coisa que viu foi uma saleta que dava para um pequeno hall com outras duas portas. Uma para o corredor, outra para o dormitrio.
Lavnia parou e refletiu. Queria estar segura de que o marqus era solicitado, e que no apenas sonhara com tudo.
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Em seguida, sentindo-se levada por uma fora superior, abriu a porta do quarto dele e entrou.
O local no estava s escuras. As cortinas abertas permitiam que o luar penetrasse em cheio. O cu estava carregado de estrelas.
Ela podia ver distintamente o enorme leito com dossel que a empregada descrevera.
Aproximando-se mais, notou que o marqus dormia um sono profundo.
- Acorde, milorde! - murmurou.
Sua voz foi to suave que o marqus nem se moveu. Tocou-lhe ento o ombro e ele abriu os olhos, assustado.
- Que houve? - perguntou.
E, ao dar com Lavnia, exclamou espantado:
- Vina!
- O senhor est sendo chamado pelo Buda de esmeralda
- sussurrou ela.
O marqus fitou-a, perplexo.
- De que est falando, Vina?
- Alguma coisa... est se passando... l embaixo. Vossa Senhoria precisa descer.
O marqus no podia crer no que ouvia.
- Por favor, venha - insistia Lavnia. - Espero-o no corredor.
Ela saiu enquanto falava e ficou aguardando por ele.
A maioria das luzes havia sido apagada, ficando apenas uma, suficiente, contudo, para faz-la ver tudo com clareza.
Um minuto mais tarde o marqus apareceu com o mesmo robe comprido que usara na ida ao quarto dela.
Lavnia no falou, apenas fitou-o.
Sem pedir explicaes, o marqus limitou-se a dizer:
- Vamos descer pela escada de servio.
Ela entendeu logo que ele preferia que o lacaio de planto, que permanecia a noite toda no hall, no os visse juntos.
No seria interessante serem vistos os dois sozinhos quela hora da noite.
Num ato impensado, Lavnia tomou-lhe a mo que o marqus apertou com fora.
A escada de servio ficava a pequena distncia do quarto  dele, e era bastante larga para que os dois descessem de mos dadas.
A iluminao, ainda que parca, guiou-lhes os passos. Quando chegaram ao andar trreo, o marqus encaminhou se para o escritrio.
Em alguns segundos l chegou, acompanhado de Lavnia
Ele abriu a porta. Havia luz no interior.
Assim que entrou no recinto, ficou boquiaberto.
O Buda de esmeralda fora tirado da gaveta onde costumava ficar, e estava sobre a mesa.
Ajoelhados em frente a ele, dois homens oravam com as mos postas.
Antes que o marqus pudesse falar, um dos homens ergueu-se.
Era alto e de cabelos brancos.
Usava uma vestimenta esquisita de monge, e um chapu enfeitado de pele.
Lavnia concluiu logo que aquele era o hbito dos monges tibetanos.
O homem virou-se para o marqus, saudou-o e disse, num excelente ingls:
- Mandei-lhe uma mensagem, nobre senhor, para que eu lhe pudesse trazer os cumprimentos e bnos do abade do mosteiro de Gyagtse. Ele sente-se muito grato por nosso 
mais precioso tesouro ter cado em suas mos, e no na de pessoas inescrupulosas que ousariam destru-lo ou desfigur-lo.
- Como soube que o Buda estava comigo?
Em vez de responder  pergunta, o monge explicou como fora furtado o objeto.
- Um monge expulso de nosso mosteiro, por possuir mal dade em seu corao, roubou-o de ns.
- Entendo - declarou o marqus.
- A imagem havia sido retirada do altar durante as 
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celebraes do aniversrio da morte de nosso fundador. Por isso, s algum tempo depois demos por falta dele e, quela hora, o ladro j tinha chegado  ndia.
- Foi onde ele me encontrou! - disse o marqus.
- Exatamente! Mas, como disse, tivemos muita sorte, milorde, por Buda ter sido comprado pelo senhor.
- Porm, ainda no posso compreender como me acharam!
O tibetano sorriu e Lavnia teve certeza de que ele era um Lama de alta categoria.
- Temos nossos prprios mtodos - informou ele. E agora, completada a longa jornada, peo-lhe que nos devolva o corao e alma de dois mil monges que vivem sob um 
teto sagrado.
O Lama fez uma pausa e olhou para o Buda, antes de dizer:
- Penso no ser necessrio falar, milorde, sobre os benefcios que adviro ao senhor por sua generosidade; e eu trouxe comigo o dinheiro que foi pago ao ladro.
Ele tirou de suas vestes uma pequena bolsa e entregou-a ao marqus. Este no aceitou e disse:
- Considero-me grato por ter estado de posse, ainda que por pouco tempo, de algo to sagrado e to valioso para os senhores. Guarde o dinheiro e gaste-o com os peregrinos 
que procurarem sua ajuda, e com os pobres.
Os olhos de Lama se iluminaram.
- O senhor Buda o abenoar - declarou. - E prometo-lhe, nobre senhor, que sempre ser lembrado em nossas preces.
O Lama guardou a bolsa de dinheiro e encaminhou-se para a porta. O marqus interrompeu-o.
- Posso lhe oferecer um refresco? Talvez queiram pernoitar aqui e viajar amanh.
- Obrigado - replicou o Lama -, mas precisamos nos apressar de volta ao lugar de onde viemos.
Lavnia falou ento, pela primeira vez desde que entrara no escritrio.
- Poderia... o Lama nos dar uma bno antes de sair?
- J esto abenoados, meus filhos, mas lhes darei a bno especial de nosso mestre e senhor.
Lavnia ajoelhou-se.
O Lama fitou o marqus.
Aps curta hesitao, ele tambm se ps de joelhos.
O Lama ergueu a mo e, com voz profunda e ressonaria que ecoou pela sala, abenoou-os.
Lavnia no entendeu as palavras, mas achou que no havia necessidade disso.
Ela podia sentir a f daquele religioso vibrando ao redor deles, como coisa indestrutvel.
Uma luz ofuscante envolveu-a e ao marqus.
Os dois fecharam os olhos, pois no conseguiam mant-los abertos.
Quando a voz de Lama morreu no espao, o silnci tornou-se absoluto, embora a luz continuasse a brilhar.
O marqus abriu os olhos julgando que o que experimentara instantes atrs fora apenas uma viso.
Porm o Buda de esmeralda sumira, como tambm o  Lama e seu assistente.
Por segundos imaginou que eles nunca haviam estado; que somente sonhara.
O escritrio apresentava-se inalterado com exceo de um vento frio que entrava pela janela aberta.
O marqus levantou-se e foi fech-la. Ouviu o som de rodas de carruagem e patas de cavalos a distncia.
Percebeu que seus estranhos visitantes partiam a caminho do Tibete.
Ele fechou a janela.
Lavnia continuava de joelhos, de cabea erguida, como se ainda olhasse para o Buda.
O marqus observou-a por algum tempo. Ia lhe falar, mas notou que ela continuava no mesmo xtase de quando o Lama os abenoara.
Sem dizer uma palavra, o marqus tomou-a nos braos; viu que estava descala.
Lavnia deu um gemido e escondeu o rosto no ombro dele.
Sendo muito leve, foi fcil carreg-la at o quarto, sem muito esforo.
A porta da saleta achava-se aberta, e a luz que vinha de dentro iluminava o corredor.
Quando chegaram ao quarto de Lavnia, ele a ps no cho gentilmente.
- V agora para a cama, meu amor. Conversaremos sobre tudo amanh.
Lavnia estava irresistivelmente linda. O marqus inclinou a cabea e seus lbios tocaram os dela.
Foi um beijo apaixonado, mas tambm respeitoso.
A, ao perceber que Lavnia tremia, saiu do quarto e fechou a porta.
Lavnia teve a impresso de que dormira apenas alguns minutos quando a empregada bateu na porta de seu quarto.
Ela entrou e abriu as cortinas.
A criada entrara pela saleta contgua ao dormitrio do marqus, pois a porta do quarto de Lavnia estava trancada.
Os eventos surpreendentes da noite anterior voltaram-lhe  memria.
Ela sentia que a bno dada pelo Lama enriquecera-a, transformando-a em outra pessoa, bem diferente da anterior.
A empregada disse:
- Apresse-se, miss. As carruagens vo chegar s seis e meia. i Lavnia pulou da cama e a criada comeou a fazer as malas.
No havia muito a ser feito, por isso tudo ficou pronto num minuto e dois lacaios apareceram para transportar a bagagem do hall.
Depois que eles saram, Lavnia ps o chapu. Achou-se estranha naquelas roupas logo de manh. Seu
casaco era de arminho e o vestido muito elegante.
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Antes das seis e meia ela apanhou sua maleta de mo, de pois deu uma gorjeta  empregada, que agradeceu gentilmente:
- Muito obrigada, miss! Espero que algum dia eu v a Londres para v-la no palco, mesmo que seja da galeria.
- Tambm espero - replicou Lavnia. - E muito, muito obrigada por tudo que fez por mim.
- Foi um prazer, miss.
Lavnia apressou-se em descer as escadas. No se espantou ao encontrar Katherine e quase todas as moas j reuni das no hall.
Ningum conversava, com certeza por ordem de Katherine.
Rupert, que se achava na porta de entrada, acenou-lhes com a mo.
As moas desceram os poucos degraus at o ptio e subiram nas carruagens.
Lavnia entrou na primeira, junto com Katherine, Milli cent e Rupert.
Os cavalos puseram-se em marcha e, to logo atravessaram a ponte sobre o lago, Rupert disse  irm:
- Millicent tem algo a lhe comunicar.
Katherine mostrou-se surpreendida com o modo como ele falara, e perguntou:
- Que houve, Millicent?
- Prometi casar-me com George. Oh, Katherine, sinto-me to feliz!
- George? O conde de Morne? - Katherine no podia acreditar.
- Ele pediu-me em casamento ontem  noite. No fique zangada comigo, querida, mas tive de lhe dizer toda a verdade.
Katherine deu uma exclamao de espanto, e Rupert falou depressa:
- George foi ao meu quarto e contou-me sobre o pedi do. Ele disse que estava loucamente apaixonado por Milli cent, e preparado para casar-se com ela mesmo em se 
tratando
(je uma vedete. Porm, o fato de ela no o ser faz as coisas bem mais fceis,  claro. Garanto que os pais de George ficaro radiantes. Millicent sorriu.
- At papai, enjoado como , no far objeo alguma a um futuro duque.
- Naturalmente que no! - concordou Katherine. - E vocs vo ser muito felizes.
- Sei que seremos - repetiu Millicent com firmeza.
- O que pedi a George - interps Rupert -, foi que no contasse a ningum, nem ao marqus, quem vocs realmente so.
Houve uma pausa antes de Katherine replicar:
- Suponho que no haja... outra sada. Preciso concordar.
- Naturalmente que voc tem de concordar - disse-lhe o irmo. - George ser muito cuidadoso sobre o assunto. Ele pretende convidar o marqus para seu casamento, 
pois  um grande amigo. Sendo assim, dar um jeito para que o marqus no esteja com Millicent por agora.
- Pensa que ele a reconheceria? - indagou Katherine.
- No, aps um ms mais ou menos. E, voc sabe muito bem, Katherine, que as pessoas vem s o que querem ver.
Katherine riu muito.
- Isso l  verdade!
- O que preocupa George  que, se o marqus vir Millicent com voc, com Lavnia ou com qualquer das outras, pode encontrar alguma semelhana com as vedetes que ele 
recebeu em sua casa. Dolly, Betty, Katy e Vina.
Todas riram pelo modo como Rupert pronunciou esses nomes fazendo-os soar de maneira ridcula.
- Suponho que voc tenha razo - admitiu Katherine.
- Me d pena termos passado por todas essas dificuldades Por nada.
- O que voc provou  que vedetes podem ter crebro tanto quanto beleza. Deixe agora que o marqus seja convencido por outra pessoa de que debutantes no so todas 
idiotas.
Continuaram a viagem em silncio.
No trem, no usaram o vago especial do marqus porque ele no esperava que partissem to cedo pela manh.
Mas viajaram na primeira classe, e Rupert providenciou um delicioso desjejum para todos.
Lavnia no pensava mais em Millicent, mas nos acontecimentos da ltima noite.
Lembrava-se de como o marqus fora generoso e compreensivo para com o Lama.
Sem protestar, ele permitira que o religioso recuperasse o Buda de esmeralda.
De repente, sem ao menos recordar do beijo que o marqus lhe dera, concluiu que o amava.
Ela o amara desde a primeira noite, no jantar.
Embora ainda horrorizada com o que ele sugerira na visita a seu quarto, no podia deixar de admir-lo, pois ele no a forara a coisa alguma.
Foi uma prova de como era maravilhoso.
Ele poderia muito bem ter insistido em beij-la, como tencionara.
Poderia t-la tocado, assustando-a ainda mais do que j estava.
"Ele  como um homem deve ser", Lavnia disse a si mesma.
Depois, teve vontade de chorar pensando que no o veria nunca mais.
Mesmo antes de Katherine comunicar suas intenes, Lavnia adivinhou que voltaria para sua casa logo, que no ficaria em Londres.
Chegando em Londres, as moas foram diretamente  casa perto de Grosvenor Square, para se trocarem.
L, Katherine disse o que Lavnia j esperava ouvir.
- Sabe, querida, que eu gostaria que voc ficasse comigo em Londres, para lev-la a bailes e festas, mas...
- Tudo bem, tudo bem - interrompeu-a Lavnia. - Sei que devo desaparecer. Voltarei para junto de papai, ele precisa de mim.
- Trarei voc para Londres comigo na prxima temporada, e nada o impedir - prometeu Katherine. - Mas voc entende, no, querida, que na presente situao temos 
de pensar em Millicent e fazer com que o duque e a duquesa no tenham a mnima ideia do que fizemos?
- Entendo - concordou Lavnia.
Ela e Katherine foram a Kenwick House a fim de apanhar as coisas que Lavnia deixara l.
As duas moas almoaram sozinhas. Rupert, aps entregar cada uma em suas prprias casas, voltou para a companhia do marqus em Sherwood Park.
Depois do almoo, Katherine comunicou a Lavnia que havia um trem partindo s duas e meia para o campo.
- Chegar em sua casa antes do anoitecer, querida - disse ela -, e eu mandarei uma de minhas empregadas com voc, pois no acho conveniente que viaje s.
Lavnia no protestou, mesmo achando aquilo desnecessrio.
Achou at bom ter algum para cuidar dela.
De qualquer modo, no estava to nervosa como no incio da viagem.
Em sua bagagem havia uma mala a mais que foi levada para a carruagem. Vendo a surpresa da amiga, Katherine explicou:
- So apenas alguns vestidos meus que sero teis para voc, Lavnia. Pus na mala tambm as roupas de vedete. Se fizer algumas reformas, ficaro bem discretas e 
aproveitveis.
- Voc  formidvel, Katherine!
- Tencionava fazer mais, porm Millicent atrapalhou meus planos. Agora preciso arquitetar outras coisas para facilitar o casamento dela com o conde. S vou ficar 
sossegada depois que eles partirem em lua-de-mel.
Beijou Lavnia com carinho e acrescentou:
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- Ningum poderia ser mais cooperativa que voc. Ningum poderia representar o papel to bem, nem poderia ser to esperta no trato com o marqus, como voc.
Lavnia preferiu no continuar a falar sobre o marqus No queria sofrer. Por isso cortou o assunto, dizendo:
-  melhor que eu saia j, seno perderei o trem. Ela beijou Katherine mais uma vez e tomou o caminho da
estao.
A viagem de trem no foi longa nem fatigante. Mas Lav nia sentiu que deixava para trs algo muito precioso, algo que jamais recuperaria.
Sabia muito bem o que desejava, mas no confessaria nem a si mesma.
Lavnia constatou logo que Nanny cuidara bem de seu pai. Ele nem sentira sua falta.
- Tenho quase trs captulos prontos para ler para voc
- disse ele com ar de triunfo.
Depois acrescentou, como se no fosse um assunto muito importante:
- Divertiu-se bastante, minha filha?
- Foi maravilhoso estar com Katherine de novo, papai Lavnia no desejava que ele fizesse muitas perguntas sobre a viagem. E foi fcil evitar porque o pai s queria 
discutir acerca do livro.
Por ser sobre a ndia, Lavnia recordou-se o tempo todo que o marqus estivera l, e que eles haviam conversado muito sobre aquele pas.
S quando foi para seu quarto, ela se deu conta de que era realmente o fim de tudo. Nunca mais veria o marqus.
O amor que sentia por ele cresceu como uma mar alta Foi to intenso, to irresistvel, que ela podia ouvir a voz dele chamando-a como ouvira a voz do Buda de esmeralda.
Depois, julgou estar dando asas  imaginao.
Para o marqus, ela com certeza no passava de uma coristazinha, uma pessoa sem importncia na vida dele.
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Ela podia ouvir Rupert falando da quantidade de coristas que haviam "passado pelas mos" dele.
Quem sabe ele lhes havia oferecido o mesmo que oferecera a ela: uma casa em Chelsea ou St. John Wood, lindos vestidos e jias.
Lamentou no ter dito a ele que no se importava com essas ninharias.
Desejava pedir apenas uma coisa, que ele no estava preparado a dar a nenhuma mulher: seu corao.
"Mas ele no teria entendido", pensou Lavnia com desnimo.
Foi ento que comeou a chorar. Derramou lgrimas abundantemente e sofridas.
Ela sentia, como outras mulheres j tinham sentido, que se apaixonara por um homem to inacessvel como a lua.
Jamais seria amada com a mesma intensidade que o amava.
Convencera-se de que a bno do Lama os unira irremediavelmente. No eram mais duas pessoas, mas apenas uma.
A bno do Buda unira suas almas.
"Eu o amo... Eu o amo!", repetiu Lavnia mentalmente, dezenas de vezes.
Chorava sem parar. Tinha a impresso de que o marqus estava to longe dela como o Buda de esmeralda, que se encontrava nas intransponveis montanhas do Tibete.
O marqus acordou mais tarde do que de costume.
Depois de ter deixado Lavnia no quarto, na noite anterior, teve muita dificuldade em conciliar o sono.
Permaneceu acordado pensando na extraordinria apario do Lama e de seu assistente.
No podia entender como eles haviam conseguido seguir seu rastro at a Inglaterra.
Ainda mais: eles entraram em sua casa sem que ningum percebesse.
O marqus ouvira falar em feiticeiros, adivinhos, na sua viagem  ndia. Alguns deles podiam olhar numa vasilha cheia
de gua e ver o que queriam, se orassem devidamente.
Talvez o tivessem descoberto assim.
Mas, no deixava de ser espantoso o fato de eles terem achado o Buda de esmeralda exatamente no lugar onde estava guardado.
Era estranho tambm Vina ter sido a pessoa avisada, e no ele.
Lembrou-se de como ela sentira as vibraes do Buda ao v-lo.
Ela reconheceu logo tratar-se de coisa sagrada e rezou com devoo.
"Vina  uma pessoa extraordinria!", pensou o marqus.
Admitiu a si mesmo que ela o atraa mais que qualquer outra mulher.
Queria tanto conversar com ela, queria tanto v-la naquele momento.
Foi s graas a seu autocontrole que a deixara sozinha no quarto, na noite da vspera, voltando para o seu.
Mas ainda o intrigava a maneira como Vina se portara quando ele quis fazer amor.
Nunca, em seu relacionamento com mulheres, tivera experincia semelhante.
Jamais uma mulher lhe dissera ser errado, condenvel, o que ele sugeria. E Vina considerou sua atitude vergonhosa e vil.
"Como poderia imaginar, adivinhar", ele se perguntava," que uma corista pudesse ser pura e intocada? "
Concluiu, no obstante, que a moa era mesmo inocente
De incio, sups que se tratasse de uma encenao. Talvez algum houvesse insinuado a ela que aquela maneira de se comportar atrairia um homem.
Mas no houve dvida, pela conversa com Vina, que ela era sincera.
Quanto mais falava com ela, quanto mais a via, mais intrigado ficava.
Como era possvel uma mulher to linda ser completamente
ignorante dos fatos da vida, dos homens, e do mundo em geral?
"Vina deve ser muito jovem", pensou ele.
Contudo, coristas que trabalham nas provncias so festejadas, e os homens as perseguem desde o momento em que aparecem no palco.
Por essa razo fora-lhe difcil acreditar que ela no estivesse representando!
"No a entendo!", repetia o marqus, revirando-se na cama, sem poder dormir.
Enfim, amanheceu. Ele no pregara o olho.
Percebeu que o valete j estivera em seu quarto, sem que ele houvesse notado.
Ao lado da cama estava a bandeja com o ch e duas fatias finas de po com manteiga.
Ele geralmente no comia o po, mas era hbito da casa preparar a bandeja a ser posta no quarto de cada um, daquele modo, antes do farto caf da manh servido embaixo.
Olhou para o relgio e viu que j eram mais de oito horas.
Achou pouco provvel que Vina tivesse descido para o breakfast, aps a noite agitada que tiveram. Lembrou-se ento de que ela dissera que costumava levantar-se cedo, 
ao contrrio das outras coristas. i Quem sabe gostaria de andar a cavalo mais uma vez, antes de partir!
"Como Vina cavalga bem! Alis, as moas todas!", rerfletiu o marqus.
Certa vez permitira que uma vedete cavalgasse no parque. E arrependeu-se muito.
A moa no tinha experincia alguma, segurava as rdeas desajeitadamente.
Tambm, embora ela disfarasse, tinha medo do cavalo, mesmo em se tratando, como no caso, do animal mais manso da estrebaria.
Enquanto que Vina e a amiga Kathy saltaram um dos mais altos obstculos da pista de corrida.
Por instantes ele imaginara que Vina fosse quebrar o pescoo.
Nesse exato momento percebeu quanto a moa significava para ele.
E mal podia crer em seus sentimentos!
Gostava da companhia do pessoal do teatro, com quem passava horas interessantes. Mas nunca nenhuma das moas lhe fora indispensvel.
Quando se cansava de uma, havia sempre outra para pr no lugar.
Porm Vina jamais poderia ser substituda!
Ela era toda especial.
Logo que se vestiu, o marqus perguntou ao valete:
- A que horas as moas vo partir?
- J partiram, milorde!
- Que est dizendo? J partiram?
- Sim, s seis e meia, milorde!
O marqus irritou-se. E indagou, muito zangado:
- Por que no fui prevenido?
- Pensei que Vossa Senhoria soubesse - replicou o valete.
O marqus vestiu o palet de montaria e desceu.
Havia vrios homens na sala do caf, incluindo Rupert Wick.
Quando o marqus entrou, todos o cumprimentaram, mas no obtiveram resposta.
Ele foi direto para perto de Rupert, que se servia no bufe.
- Por que no me contou que as moas iam partir to cedo? - perguntou.
- Pensei que voc soubesse - respondeu Rubert com displicncia. - Elas precisavam estar em Londres cedo, e penso que hoje mesmo partam para outra cidade, a fim de 
representar no show A Garota.
- Que cidade?
- No me lembro. Talvez Manchester. Mas, realmente,
omarqus tomou o seu lugar  cabeceira da mesa
Rupert lanou um olhar significativo ao conde de Morne. ambos estavam apreensivos!
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CAPTULO VII
Lavnia j chegara havia quatro dias quando a nanny lhe disse:
- No sei o que voc tem, anda to triste! Espero que no esteja doente.
Lavnia teve vontade de dizer que sofria por amor, esse era seu mal.
Chorava na cama todas as noites.
S com muito esforo falava normalmente e sorria durante o dia.
- Voc precisa de uma amiga de sua idade - acrescentou a nanny. - Quando lady Katherine vai voltar?
- No tenho ideia, nanny - replicou Lavnia. - Ela deve estar se divertindo muito em Londres, mas espero que todos voltem antes do Natal. O conde no vai desistir 
de sua temporada de caa no fim de novembro.
- Bem, o conde no convidar voc para as caadas caoou nanny. Mas espero que a condessa traga consigo muitos amigos.
- com certeza! - concordou Lavnia.
Mas ela sabia que o marqus no seria um deles.
"Katherine ter conseguido evitar o marqus em Londres? "
- ela se perguntava.
No seria difcil, pois na certa ele passaria todo seu tempo com as coristas do teatro.
Lavnia decidiu passear a cavalo.
Hesitou quanto  roupa a usar. A que Katherine lhe dera?
Depois, achou que no faria diferena a ningum se estmo
v bem ou mal vestida.
Seu pai, a nica pessoa da casa, nem a notaria. Podia cobrir-se com um saco...
Lavnia procurou pelo cavalario, que os servia h anos, para ver se o cavalo havia sido preparado. Ela sempre tivera orgulho de Swallow. Mas no podia compar-lo 
com Rufus ou qualquer dos outros animais pertencentes ao marqus.
O que ela realmente queria, no momento, era sumir de casa a fim de refletir sobre sua vida.
Cavalgou pelo parque. Passando sob as rvores, chegou  floresta.
Sempre amara a floresta, desde criana.  Acreditara haver duendes escondidos atrs dos arbustos ninfas no lago que ficava bem no centro da mata. Mas, naquele dia, 
toda a magia desaparecera. i Ela s podia ver os olhos cinzentos do marqus e ouvirlhe a voz grave.
Pensava em como ele a carregara escada acima aps a bno do Lama.
Mesmo no estado de xtase a que a bno a transportara, ficara consciente da fora dos braos e da proximidade dele.
Quando o marqus a beijou, foi como se estrelas brilhassem no cu.
O luar lanara faixas luminosas em seu corpo. "Eu o amo! Eu o amo!", ela repetia agora mentalmente.  Os passarinhos cantavam e fugiam  sua aproximao.  Durante 
a noite formara-se forte geada, por isso Lavnia cavalgava com cuidado, evitando que o animal escorregasse. Os pinheiros fizeram-na pensar no Natal. Os lamos e 
carvalhos j haviam perdido a folhagem.
Quando muito jovem, Lavnia acreditava que nada podia ser mais lindo que o esqueleto de uma rvore sem folhas, contra a vastido do cu. Isso a impressionava de 
maneira estranha.
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Ela teve quase a mesma sensao ao olhar para o buda de esmeralda.
Pensou no Lama levando-o em triunfo ao mosteiro do Tibete.
Imaginou a alegria com que a imagem seria recebida, a reverncia com que os monges se ajoelhariam para rezar ao senhor Buda.
Ela cavalgava refletindo em sua felicidade pela maravilhosa experincia que tivera.
No seria pretenso desejar algo mais?
No obstante, todo seu ser clamava por Sherwood Park e pelo marqus.
- Preciso usar de bom senso - sussurrava como se falasse com uma criana. - Em Londres, ele se esquecer de mim. Como posso ser to boba chorando pelo inatingvel?
Ela saiu da floresta e entrou numa clareira onde frequentemente cavalgava com Katherine e Rupert.
Tudo lhe pareceu desolado, rido, sem eles.
Depois, lembrou-se das risadas que deram no jantar da casa do marqus.
"Talvez um dia, em Londres, eu encontre algum como ele", Lavnia tentava se convencer.
Mas tinha certeza de que jamais encontraria homem igual ao marqus.
Nenhum outro homem aprisionaria seu corao.
Recordou-se do que a me lhe dissera: "Quando conheci seu pai, soube logo que no havia outro homem no mundo, exceto ele. E seu pai pensou o mesmo sobre mim".
"E eu me sinto assim", admitiu Lavnia. "Isso significa que morrerei sozinha. "
Imaginava o que poderia fazer quando o pai se fosse para sempre.
Talvez lecionar numa escola... cuidar de crianas... Passou ento por sua mente que no desejava nada mais no mundo do que ter seu prprio filho. Um filho que, ao 
crescer, se assemelhasse ao marqus.
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No entendia por que razo o marqus tinha reputao de
Convencido e pomposo.
Lembrava-se da generosidade e compreenso dele para com
Lama.
Homem algum, por melhor que fosse, se portaria de maneira mais perfeita.
"Eu o amo. "
Essas palavras vinham-lhe aos lbios o tempo todo.
Voltando a casa, achou que o mundo era escuro e gelado.
Ela no tinha nada a esperar no futuro.
O velho cavalario levou Swallow ao estbulo e comeou a escov-lo.
Lavnia entrou no hall e subiu para se trocar.
Mesmo no havendo necessidade disso, se trocaria, de qualquer forma, para jantar com o pai.
Sua me sempre insistira que, ao retomar de um passeio a cavalo, era necessrio despir o traje de montaria e tirar as botas.
Lavnia estava imersa em seus pensamentos enquanto se trocava.
S quando se olhou no espelho para arrumar os cabelos, percebeu que pusera um vestido de cor azul.
O mesmo tom de azul da toalete que usara em Sherwood Park.
Nem pensara nisso ao tir-lo do guarda-roupa.
Quis troc-lo imediatamente, pois fazia lembrar-se de tudo o que acontecera por l.
Mas se deu conta de que possua apenas dois vestidos, no incluindo os que Katherine lhe dera.
Portanto, ficaria como estava.
Ser que algum dia iria usar as roupas de Katherine? Para qu? No havia ningum que pudesse apreci-la, afinal.
- Voc trouxe vestidos lindos, querida - a nanny comentara no dia em que Lavnia chegou. - No vai pendur-los no armrio?
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- Sim, claro, nanny, logo que eu tiver tempo. Foi Katherine que os deu para mim.
- Estava mais que na hora de sua amiga lhe fazer uma amabilidade, Lavnia - observou a empregada.
Ela saiu do quarto e no se falou mais no assunto dos vestidos.
Ela no ignorava que nanny ressentia-se do modo como Katherine a abandonara, depois de sua ida a Londres.
"Ela tentou se reabilitar comigo levando-me a Sherwood Park", admitiu Lavnia. "Como eu gostaria que isso no tivesse acontecido. "
Mas... no era verdade.
Embora pensar no marqus e sentir saudades dele fosse agoniante, Lavnia nunca lamentaria, nunca, hav-lo conhecido um dia.
Lavnia desceu e pensou em apanhar um livro.
Fazia frio. Por isso ela voltou mais cedo  casa que de hbito.
Ps algumas achas na lareira.
Ia sentar-se numa poltrona confortvel e concentrar-se na leitura quando percebeu que algum batia  porta.
"Ser que nanny ouviu? Talvez eu mesma tenha de abrir. "
A, escutou os passos de nanny e ficou pensando em quem poderia vir visit-los quela hora.
Quem sabe um paroquiano da aldeia para ver seu pai.
Lavnia preferia que no fosse, pois o pai trabalhara a manh toda em seu servio paroquial.
E, naquele instante, ocupava-se do livro.
Ficaria com certeza aborrecido de ser perturbado.
"vou ver se posso resolver o problema", pensou Lavnia.
Ento, nanny apareceu na porta da sala e anunciou:
- O marqus de Sherwood quer v-la, miss Lavnia. Por um instante, Lavnia, de costas para a porta, no se
moveu.
Depois, virando a cabea, constatou que era de fato o
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marqus. ele parecia encher a sala toda com seu corpo atltico e com seus passos largos.
Caminhava ao encontro de Lavnia, que no conseguia nem respirar.
Como o marqus no falasse, ela gaguejou, num som quase inaudvel:
- Por que est aqui? O que... houve? Como me achou?
- Quantas perguntas? - replicou o marqus. - Eu  que devia faz-las, no voc!
Ele a fitava com um olhar penetrante que lhe ia at o fundo da alma.
- Como pde agir to absurdamente e de maneira to ultrajante, fingindo ser uma corista? - inquiriu ele, bastante zangado.
Lavnia tremia; assustava-a a expresso daquele olhar. O marqus esperava por uma resposta. Hesitante, Lavnia disse:
- Como... me encontrou? com certeza no foi Rupert... que lhe revelou onde eu morava...
- Rupert mente muito bem, por sinal. Mas voc vai me contar como, aps termos tido tanto em comum, ousou sair de minha casa de modo indigno, sem ao menos me dizer 
adeus, e me contar a verdade!
- Partimos muito cedo - balbuciou Lavnia - porque no queramos que Vossa Senhoria soubesse... quem ramos.
- Entendo isso quanto s outras; mas, voc?
- Disse "as outras"? - murmurou Lavnia. - Ento sabe quem so elas?
- Descobri tudo usando a inteligncia. E ningum, excetuando-se voc agora, sabe que eu j desvendei parte do mistrio.
Lavnia fitou-o intrigada.
-  mesmo verdade?
- Eu tenho o hbito de falar sempre a verdade! - protestou o marqus. - Descobri quem voc era, sem falar com
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pessoa alguma do grupo. Lavnia torcia as mos nervosamente.
- No... entendo como... descobriu. Confesso que menti mas, por favor, tente esquecer-se de tudo... e me deixe j.
O marqus riu muito.
- Acha isso possvel? Como posso passar o resto de minha vida sem achar uma explicao para o que houve?
- Se... se eu lhe contar sobre mim... ser suficiente para Vossa Senhoria?
-  o que desejo ouvir. Considero um erro, Vina, ou melhor, Lavnia, guardarmos segredos um para o outro.
Lavnia admitiu logo que havia um enorme segredo entre eles. Mas, esse segredo, ele no poderia jamais saber.
Ela o amava!
Sentindo as pernas bambas, sentou-se no sof.
O marqus continuou de p, de costas para a lareira, os olhos fixos nela.
- Voc faz as coisas mais complicadas do que so - observou o marqus. - Portanto, desemaranhe logo esse novelo contando-me a verdade.
- O que... Vossa Senhoria quer saber... primeiro?
- Quero saber como pde me deixar sem me dizer para aonde ia, reconhecendo ser impossvel para mim encontr-la.
- Contudo... me encontrou!
- com grande dificuldade!
Silncio. Enfim, Lavnia arriscou confessar:
- Pensei... que talvez o senhor no tivesse grande interesse... em me ver depois que eu partisse.
- E satisfez-se com a ideia de que eu a esqueceria; foi isso? Lavnia lembrou-se logo de como chorara, noite aps noite,
de como se sentira infeliz naqueles ltimos dias! O marqus aguardava por uma resposta, e ela declarou:
- Eu no poderia fazer... o que me pedia. Por isso, a nica soluo que encontrei... foi tentar no v-lo de novo.
- O que sugeri aconteceu unicamente por culpa sua, Lavnia. Fingiu ser o que no era. Na verdade, voc me deixava
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 perplexo com tudo o que dizia e fazia.
- Assim mesmo... quis me ver... outra vez? - murmurou Lavnia.
- Naturalmente quis v-la! - A voz do marqus soava positiva. - Mas, quando percebi que se escondera bem, comecei a achar minha tarefa difcil demais.
- Ento... como me encontrou? - repetiu Lavnia. O marqus sorriu.
- Voltei a Londres na segunda-feira e fui ao Teatro de Variedades. Vi George Edwardes e perguntei-lhe em que local iria ser exibido o show A Garota.
Lavnia deu uma exclamao de horror, pois no supunha que o marqus chegasse ao ponto de interrogar George.
- George Edwardes - prosseguiu o marqus - disse-me que estava sendo levado em Manchester, e ofereceu-me um programa.
- E nossos nomes... no constavam l - gritou Lavnia, muito sem jeito.
- No! Nenhum! - O marqus estava furioso.
- Mas o senhor no disse nada... a George? Nem a seus amigos?
Lavnia falava com ansiedade, sabendo como Katherine se aborreceria com tudo aquilo e, claro, Millicent ainda mais.
- Acontece que quando deixei George Edwardes, voltei para minha casa em Grosvenor Square para refletir. Conclu que Rupert mentira para mim, e conjeturei como encontrar 
voc.
Lavnia deu um suspiro. Ele pensara nela! Quis v-la de novo! Que maravilha! Sentia que a presso de seu peito desaparecia aos poucos.
E o marqus ia em frente com sua narrativa:
- Fui ao meu escritrio, mais ou menos igual ao de Sherwoood Park. Pensava no Buda de esmeralda e no que ele significaria para voc, mesmo antes da vinda do Lama. 
A vi, como se algum o apontasse para mim, um exemplar do Livro dos Pares do Reino", da autoria de Debrett.
Lavnia fitou-o atnita, mas no disse nada, e ele continuou:
- De repente, tive uma ideia, ou talvez o Buda tenha me ajudado: enxerguei uma profunda semelhana entre Rupert Wicke a vedete de nome Kathy.
- Meu Deus! - exclamou Lavnia.
Bem depressa procurei no livro o nome do conde de Kenwick, e descobri que ele tinha uma filha chamada Katherine, que devia estar com dezoito anos de idade. Fiquei 
esttico, nas achei que aquilo que imaginava no podia ser verdade. Por que razo, afinal, uma debutante de dezoito anos, apenas apresentada  corte, fingiria ser 
uma corista? Em contrapartida, como era possvel que uma vedete saltasse to bem os obstculos da pista de corrida?
Lavnia no pde deixar de rir, mesmo estando nervosa.
- Isso me intrigou - disse o marqus. - Ou melhor, o Buda me guiava mais uma vez. Vern no  um nome comum, embora Verson seja. Virei algumas pginas do Livro e 
descobri que o pastor Anthony Verson, irmo do atual conde, era o pastor de Little Wickington, e tinha uma filha de nome Lavnia!
- Ento, foi assim! - ela exclamou
- Sabia onde Rupert morava, e lembrei-me de que voc ficara o tempo todo, enquanto em Sherwood Park, muito ligada a Kathy. Sempre desciam as escadas juntas, e voc 
olhava constantemente para ela  procura de segurana e aprovao.
- O senhor... percebeu isso?
- Isso e muitas outras coisas referentes a voc, Lavnia. Acima de tudo, que era, sem dvida, a mulher mais linda que conheo!
Lavnia exultou de alegria, mas preveniu-o:
- O senhor me encontrou... foi bastante esperto... mas precisa entender que Katherine e as outras moas se magoariam muito se fosse descoberto o que fizeram.
- E, por que o fizeram?
Lavnia desviou o olhar para outro lado antes de responder:
- No quero lhe falar sobre o assunto...
- Por que no?
- Porque  embaraoso demais para mim.
- No entendo e, francamente, juro que vou descobrir a verdade, nem que seja necessrio interrogar Kathy, quer dizer, lady Katherine.
- No... no - suplicou Lavnia. - Eu vou lhe contar, mas prometa que no ficar... zangado comigo.
- Acho que tenho o direito de ficar bravo, Lavnia. Vai  minha casa, e vocs oito enganam a mim e a meus amigos, fazendo-nos de bobos!
- S o senhor, no seus amigos - murmurou Lavnia.
- S eu? Por que s eu? Que fiz para ofend-las? Lavnia respirou fundo.
Depois, quase num sussurro, explicou:
- Quando Rupert, a pedido de Katherine, convidou-o para uma festa, Vossa Senhoria... disse que, se havia no mundo uma coisa que detestava... eram as debutantes tontas, 
desajeitadas e sem atrao.
A voz de Lavnia quase sumiu s ltimas palavras.
No ousava encarar o marqus, pois receava que estivesse furioso.
Inesperadamente, porm, ele deitou a cabea para trs e soltou uma sonora gargalhada.
- No acredito! - disse. - Quer dizer que todo esse escarcu simplesmente por causa disso?
- Katherine ficou ofendida e decidiu mostrar-lhe que debutantes podem ser inteligentes. E, como Vossa Senhoria se recusasse a conhecer-nos, a nica coisa que podamos 
fazer era nos disfararmos em mulheres como as que o senhor gosta de ter em sua companhia.
- Vejo agora a razo - declarou o marqus. - E posso entender muitas coisas que me intrigavam antes.
- Ento... no est zangado?
- Estou, mas apenas com voc, Lavnia.
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- Por favor, prometa ao menos que no vai me trair nem s outras moas. No deixe que seus amigos saibam que elas no eram... coristas, e sim debutantes da sociedade.
- Isso arruinaria a reputao de vocs todas?
- Claro! - confirmou Lavnia. - Ficamos l o tempo inteiro sem uma dama de companhia.
- O que, alis, foi extremamente condenvel! - considerou o marqus.
Agora falava com certa indignao. E Lavnia receou que ele revelasse tudo aos amigos para lhes dar uma lio.
- Nossos pais no tm a mnima ideia do que fizemos
- murmurou ela. - E ficaro furiosos... quando souberem.
- Naturalmente - concordou o marqus.
- Millicent vai ficar noiva do conde de Morne - prosseguiu Lavnia - e foi ele quem insistiu com Rupert para que no lhe contasse a verdade. Antes, havia sido combinado 
que Rupert revelaria tudo a Vossa Senhoria, aps nossa sada.
- Ento, eu ia saber da verdade! - observou o marqus.
- Ia, s o senhor! Queramos apenas lhe dar uma lio! E Rupert acreditava que Vossa Senhoria, como verdadeiro cavalheiro, no diria a ningum.
- O plano foi louco desde o incio! - exclamou o marqus. - Mas no posso deixar de cumpriment-las pelo belo trabalho. No somente assemelhavam-se a vedetes, como 
eram muito mais bonitas e atraentes que qualquer uma delas.
- Achou mesmo?
- Achei, Lavnia. E voc, a mais bela de todas! Lavnia corou. Depois disse:
- Como no sou pessoa muito importante... no faz mal que Vossa Senhoria tenha descoberto a verdade sobre mim. Mas, por favor, por favor... mantenha segredo acerca 
das outras moas!
- No estou interessado nelas - replicou o marqus. Apenas em voc.
Lavnia deu um grito de alegria.
- Quer dizer que no vai dizer nada a papai? Ele ficaria
chocado e... ofendido... por eu ter praticado ato to condenvel.
- Ento, por que concordou com Katherine? Lavnia fitou-o, desapontada.
- O senhor vai entender. Eu me sentia muito solitria aqui, enquanto Katherine permanecia em Londres. No a via h quase um ano. Quando ela apareceu pedindo-me para 
ajud-la... seria eu a oitava corista, no pude resistir. Ficar uns dias na casa de Vossa Senhoria pareceu-me a aventura mais excitante que poderia me acontecer 
na vida!
- Nunca esteve em Londres, Lavnia?
- S duas ou trs vezes, com Katherine, enquanto providencivamos roupas iguais s das mulheres que o senhor aprecia.
- Nesse caso, foi verdade o que me disse de nunca ter sido beijada! O marqus falava consigo mesmo.
Lavnia lembrou-se do que mais ele lhe pedira naquela noite, e enrubesceu. Sussurrou:
- Jamais pensei... jamais imaginei... quando tranquei a porta de meu quarto... que algum pudesse l entrar.
O marqus no disse nada.
- A outra porta! - exclamou Lavnia aps curto tempo. - Por isso me mudaram de quarto! I
- Supus que voc adivinhasse, mais cedo ou mais tarde, a razo.
O rosto dela pegava fogo quando ele acrescentou:
- No tenho culpa se voc agiu como excelente atriz!
- S agora comeo a entender por que Katherine nos ordenou que trancssemos a porta do quarto. Ela devia saber o tipo de coisa... que acontece com vedetes.
- Esquea! - ordenou o marqus. - Voc j foi punida por seu pecado. At a noite em que entrei em seu quarto, pensava que seu ar de inocncia e ignorncia fizesse 
parte de uma encenao para me atrair.
- Confesso... que errei!
- Porm, depois, voc foi muito corajosa indo a minha
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procura para me falar sobre o Buda de esmeralda. Como pde saber daquilo tudo?
- Vossa Senhoria devia adivinhar... a resposta - murmurou Lavnia. - Quando pela primeira vez segurei o Buda em minhas mos, senti que ele queria... falar comigo. 
Mesmo agora custa-me crer que eu tenha tocado relquia to maravilhosa. E nunca me esquecerei... da bno do Lama.
- Nem eu. Mas quero saber, Lavnia, como voc pde pensar que pudesse me esquecer!
- No disse... que o esqueceria! Achei que no o veria pelo resto de minha vida.
- E no se preocupou com isso?
Ela baixou a cabea. Ao notar que o marqus aguardava por uma resposta, disse:
- Naturalmente... eu queria v-lo! Mas achava impossvel. O senhor viria logo a saber, por Rupert, que havamos apenas representado.
- Alis, uma representao bem condenvel! - censuroua o marqus.
- Sinto muito! Peo-lhe mil desculpas! Mas, por favor, no fique bravo comigo!
Ela pedia com humildade, numa verdadeira splica.
O marqus estendeu-lhe ambas as mos e a fez erguer-se do sof.
Antes que Lavnia pudesse se dar conta do que iria se passar, ele envolveu-a pela cintura.
Depois, tocou-lhe os lbios com os dele.
Por ainda estar nervosa, Lavnia no conseguia acreditar no que sucedia. Imaginou estar sonhando.
Estrelas voltaram a brilhar no cu de sua imaginao, e o mesmo xtase que sentira ao tocar o Buda, voltou.
O marqus beijou-a gentilmente de incio. Em seguida, ao perceber que Lavnia entregava-se a ele, beijou-a com avidez, com mais vigor.
Ela teve a impresso de que nuvens se abriam e que era transportada para o cu.
O marqus continuou beijando-a por muito tempo, e ele tambm viu-se tomado de uma sensao diferente, encanta- dora, provocada pelo contato dos lbios de Lavnia.
- Eu amo voc, minha querida! - confessou ele enfim.
- Quando podemos nos casar?  Enquanto falava, enxergou mais uma vez a chama de felicidade no rosto de Lavnia, a mesma chama de quando ela reverenciava a imagem 
do Buda.
De sbito, Lavnia murmurou, num tom de voz muito triste:
- Eu... amo voc! Mas no posso me casar.
O marqus nunca pensou que mulher alguma pudesse rejeit-lo, e em especial Lavnia.
- Por que no pode se casar comigo? Voc me ama! Eu sei que me ama!
- Eu amo voc... com todas as foras de meu corao!
- ela balbuciou. - Mas, se nos casarmos, logo se cansar de mim, e ento, vou desejar apenas... morrer.
O marqus puxou-a para perto de si.
- Por que diz isso, quando j lhe confessei que a amo muito? - perguntou ele. - Juro que nunca amei mulher alguma como amo voc.
- Mas... no sou vedete - soluou Lavnia. - Apenas fingi ser uma...
Carinhosamente, o marqus conduziu-a ao sof, onde ambos sentaram-se.
- Preciso faz-la entender uma coisa que nunca revelei a ningum. Voc ser primeira a saber.
Ele levantou-se e, de costas para a lareira, comeou a expor:
- Sei exatamente o que pensa acerca de meu procedimento com mulheres do teatro. E sei que todos se divertem com o que chamam de minha "obsesso" por elas.
- Sabia... disso?
- Claro que sei. No sou nenhum tolo!
- No... no . Mas no entendo...
O marqus deu um suspiro. Depois, concluiu que precisava
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 desabafar logo, e comeou:
- Quando minha me morreu, tinha dez anos. Eu a adorava; era tudo que havia de carinhoso, suave, meigo em minha vida. Aps a morte dela, meu pai cuidou de minha 
educao.
O marqus comprimiu os lbios antes de continuar:
- Educao? No, melhor dizendo, "treinamento rgido". Ele quis me preparar para  posio que eu iria assumir quando ele morresse, e achou que eu tinha de ser o 
mais inteligente, o mais notvel marqus de Sherwood.
Ele falava com revolta.
Lavnia notou isso, e resolveu sugerir:
- Se abordar o assunto o aborrece... prefiro que no o faa. No diga mais nada.
- Voc precisa saber a verdade, Lavnia, precisa saber de tudo.
Aps uma pausa, ele prosseguiu:
- Meu pai insistiu que eu tivesse professores tambm durante as frias, trabalhando comigo to severamente que no me davam tempo de lazer. Fui to bem preparado 
que me tornei o melhor aluno em Eton.
Ele suspirou. Disse em seguida:
- Em Oxford era tambm sempre o primeiro aluno da classe. Durante as frias, continuava estudando com professores, num programa rgido.
Lavnia escutava com ateno, sem dar palpites.
- No servio militar, meu pai ps na cabea que eu tinha de me tornar general.
Sua voz ficou dura quando disse:
- Ele escolhia meus livros. Em cada minuto livre que tinha no acampamento militar, era obrigado a ler sobre a Histria do Exrcito nos sculos passados. Meus amigos 
no falavam de outro tema alm das regras dos soldados e das batalhas onde haviam lutado.
O marqus tinha na face uma expresso amarga, que mostrou claramente a Lavnia como tudo aquilo havia sido fatigante para ele.
- Meu pai me conduzia... conduzia sempre... at que um dia, sem que ningum esperasse, faleceu. Isso foi h quatro anos e, aps o funeral, me senti subitamente livre. 
Livre de ser pressionado, empurrado, forado a lutar em cada minuto de minha vida por uma posio de destaque que no me interessava; mas que agradava a meu pai.
O marqus andou at a janela e voltou, concentrado sempre em seus pensamentos. Ento falou:
- Talvez voc possa entender que, uma vez livre, sentime como um menininho numa loja de brinquedos. Pela primeira vez na vida fui meu prprio senhor. Naturalmente 
quis me ocupar com leviandades, com coisas que no continham metas importantes.
Ele fez uma pausa e confessou:
- Acima de tudo, resolvi no me casar. Lavnia arregalou os olhos quando ele revelou:
- Um pouco antes de morrer, meu pai ocupava-se em encontrar uma esposa para mim, uma mulher que pudesse trazer vantagens  famlia e que firmaria a minha posio 
no mundo social. Como se isso fosse necessrio!
A, o marqus riu ironicamente.
- Por sorte, ele morreu antes de conseguir seu ltimo desejo; mas tinha duas ou trs candidatas em mente.
Lavinia comeava a adivinhar onde essa histria ia chegar.
- Sabendo de minha posio social, no ignorava que qualquer mame "atiraria" sua filha para meu lado e, se eu no fosse cuidadoso, seria apanhado nas malhas da 
rede que meu pai j tinha preparado.
- Por isso... voc foi atrs das vedetes... - terminou Lavnia num sussurro.
- Exatamente! - concordou o marqus. - Fui atrs delas e encontrei o prazer que me fora negado por tanto tempo.
Ele ria com sarcasmo.
- Encontrei alegria junto das vedetes porque estava
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livre de compromissos, de armadilhas das quais no poderia escapar.
- Eu... entendo - concordou Lavnia. - Claro que entendo.
- Assim que me cansava de uma, corria para os braos de outra. Pagava com generosidade pelo meu prazer. Trocava de mulher como um menino troca de brinquedo, ou escolhe 
outro cavalo. Havia sempre algumas lgrimas da parte delas, mas nunca recriminaes exageradas.
Depois de pequeno intervalo, o marqus continuou, porm num tom de voz bem diverso.
- Tudo me parecia perfeito, at eu encontr-la. Lavnia estremeceu quando ele disse, de maneira decidida:
- Acho que me apaixonei  primeira vista, no jantar, quando voc apreciou minha casa. Desejei que me apreciasse tambm.
- Mas, naturalmente o apreciei. No obstante, tive medo de voc... muito medo.
- Posso entender, Lavnia.
- Conhecendo-o melhor, conclu que era bem diferente do que pensei.
- Em que aspecto?
 bondoso, e pessoa alguma referiu-se a essa sua qualidade. E no cheguei a tal concluso s pelas coisas que me disse, mas pelo que sentia quando estava junto de 
voc.
- O que sentia? - perguntou o marqus.
-  difcil de explicar. Mas, quando me apertava a mo, sentia... vibraes... mais ou menos semelhantes s que experimentei ao tocar a imagem do Buda.
- E voc me deixava perplexo, intrigado - declarou o marqus. - Cavalgando, e to bem, achei-a linda, e resolvi proteg-la.
Lavnia corou.
Tentando ser prtica, ela apresentou suas razes:
- Voc precisa ver que se casar comigo e depois decidir
escolher outra mulher, no poder apenas pagar e sumir de minha existncia. Um casamento  algo difcil de ser dissolvido. O marqus sorriu.
- E voc na verdade pensa, minha adorada, que eu iria troc-la por outra mulher?
- Mas... tudo  possvel. E, se achar que o apanhei numa armadilha por mais que procure... no conseguirei deixlo fugir.
Lavnia soluou, e lgrimas corriam-lhe pelas faces. O marqus abraou-a.
- como posso me cansar de voc, ou querer sair de sua vida? - perguntou. - Voc  minha, Lavnia, minha, completa e absolutamente! No fomos unidos um ao outro s 
por alguns momentos, mas para o resto de nossas vidas, com a bno do Lama.
Lavnia fitou-o e sussurrou:
- : Foi o que pensei... mas no sabia que o mesmo se dava com voc.
- Claro que pensei a mesma coisa. Nunca senti nada igual, nada to maravilhoso!
Depois, olhando para ela com muito carinho, prosseguiu:
- O Lama nos transformou numa s pessoa, e seria impossvel nos separarmos aps aquela bno.
Lavnia encostou a cabea no ombro do marqus.
- Voc est chorando, meu amor? - exclamou ele. O que a faz infeliz?
- Choro porque estou feliz! - respondeu Lavnia entre soluos. - Pensei que o tivesse perdido, que voc se esqueceria de mim. Eu nunca poderia amar outro homem, 
isso sem nenhuma dvida!
- E nunca amar outro homem, meu amor. Voc me amar, ficar comigo, ser minha pelo resto de nossas vidas.
Ele beijou-a mais uma vez.
Beijou-a apaixonadamente, avidamente, e chamas incen-
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diaram o corao de Lavnia.
Muito, muito tempo depois, o marqus disse:
- Acho, meu tesouro, que preciso falar com seu pai a fim de pedir-lhe permisso para que nos casemos imediatamente.
- Imediatamente?
Ele aconchegou Lavnia mais junto de si e acrescentou:
- Est sendo boba de novo, meu amor. Sabe muito bem que, se anunciarmos nosso noivado e providenciarmos uma cerimnia suntuosa, todos os homens que estavam em minha 
casa no ltimo fim de semana a reconhecero de pronto.
- Tinha me esquecido! Oh, querido, o que vamos fazer ento?
- Muito fcil - replicou o marqus. - Seu pai mesmo nos casar amanh de manh. Em seguida, partiremos em longa lua-de-mel.
Ele fez uma pausa antes de dizer:
- No posso lev-la ao Tibete, mas sei que gostaria da ndia. Como ainda no fui ao Sarnath, onde o Buda pregou pela primeira vez, voc me conduzir a esse lugar.
Lavnia deu um pulo de pura alegria.
-  mesmo? Vamos mesmo?
- Claro que vamos. E no posso imaginar nada mais emocionante, minha querida, que mostrar-lhe a ndia e muitos outros lugares que at agora voc visitou apenas na 
imaginao, conforme me disse.
- No posso crer... No posso crer que no esteja sonhando - murmurou Lavnia.
- Daqui por diante sonharemos juntos, e seremos as pessoas mais felizes do mundo.
O marqus beijou-a, enxugando com os lbios as lgrimas de seu rosto. Depois, perguntou:
- O que est esperando? Se seu pai se encontra no escritrio, escrevendo o livro, precisamos comunicar-lhe sobre nossos planos. - Mas no conte a ele que nos conhecemos 
em Sherwood
Park, por favor... - Claro que no. Direi que nos encontramos em Londres,
num jantar muito respeitvel, na casa de Katherine e Rupert
Wick. Direi tambm que me apaixonei por voc  primeira
vista; e isso, ao menos,  verdade.
- Nunca mais... mentirei! - jurou Lavnia.
- No vou permitir que minta. Contudo, pensando bem, se Katherine no tivesse tentado provar que as debutantes so mais inteligentes que as vedetes, eu no a teria 
conhecido, meu amor.
Lavnia riu muito e comentou:
- Rupert disse que a nica coisa que Katherine quis mesmo provar foi que debutantes tm crebro. Mas, quanto  beleza...
- Voc, meu tesouro, tem ambas as qualidades, beleza e crebro. No tenho de que me queixar.
- Quero que continue... dizendo sempre isso sobre mim...
- Direi muitas outras coisas mais, Lavnia, mas teremos de nos casar antes. Oh, meu amor, amo voc tanto que vai ser difcil esperar at amanh.
Lavnia ergueu-se, dizendo:
- vou chamar papai. Ns precisamos prometer-lhe que traremos mais informaes sobre a ndia a fim de completar o trabalho dele.
Lavnia mal acabara de falar e o marqus j a abraava, beijando-a ternamente.
- Eu amo voc! Eu adoro voc! Eu venero voc! Somos abenoados por Deus, minha querida, porque nos encontramos. Somos mais abenoados que qualquer outra pessoa do 
mundo.
-  verdade - confirmou Lavnia. - E eu amo voc porque  uma pessoa maravilhosa, generosa, uma pessoa enfim que tem todas as qualidades de um verdadeiro homem.
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O marqus beijou Lavnia at que a sala girasse em torno dela.
Os dois flutuavam num cu cheio de estrelas. E a luz do Lama os envolvia.
Era uma luz que vinha da eternidade.
A luz do Amor!
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora. que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
BARBARA CARTLAND
No perca a prxima edio!
A dama de companhia
Sozinha, com fome e frio, Jacoba sentiase triste e cada vez mais infeliz no trem que a levava para a Esccia, rumo a um destino desconhecido. Filha de uma antiga
famlia inglesa, estava rf e falida, precisando se empregar como governanta
de um velho senhor, o conde de
Kilmurdock, chefe de um poderoso cl
nas Terras Altas. Quase chorando, Jacoba
lembrava-se dos tempos em que era feliz
ao lado dos pais, em sua bela manso no
interior da Inglaterra. Agora, sem
parentes e amigos, tinha medo, muito
medo, de nunca mais poder encontrar
carinho sincero, paz e felicidade!

Fim
